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Crítica | Roda Gigante, o novo filme escrito e dirigido por Woody Allen

Woody Allen repete a atmosfera nostálgica e retrô de “Café Society” e “Meia noite em Paris”, em seu novo longa Roda Gigante, com Kate Winslet e Justin Timberlake em papeis de destaque. O local escolhido é a Coney Island dos anos 1950, já ofegante e que tenta sobreviver do seu passado decadente.

A atuação de Winslet é um dos pontos mais altos do filme. Na pele da ex atriz de teatro, Ginny, faz com que o público feminino se identifique e crie empatia facilmente com seu personagem.

Ginny é aquela mulher que tinha tudo pra dar certo, mas por causa das circunstâncias da vida acaba se distanciando de quem realmente é e se desviando do rumo que deveria tomar. Ao invés de ter se tornado uma atriz de sucesso como sempre sonhou, acabou casada com um homem que não ama, trabalhando de garçonete e, mãe de uma criança problemática e claramente carente de atenção, que a culpa por não ter tido convívio com seu pai biológico.

Diante disso surge Mickey, um sopro de esperança em seu destino fadado a eterna desilusão. Interpretado por Timberlake, Mickey é um estudante de mestrado que trabalha como salva vidas em Coney Island no verão e, assim como Ginny, tem alma de artista e também está frustrado com sua vida profissional que é bem diferente do que sempre desejou para si. Os dois compartilham a paixão pelo teatro e por toda magia que o envolve.

Enquanto ela sonha com os palcos, ele sonha em escrever peças de teatro como aquelas criadas por seus dramaturgos preferidos. É um poeta fissurado por literatura, principalmente inglesa, que acredita que a vida deve ser emocionante, da mesma forma que as mulheres com quem se envolve precisam ter histórias de vida que o fascina.

Só que sua paixão dura apenas o tempo suficiente de conhecer outra história, mais interessante que a anterior. No fundo, não ama pessoas, mas apenas suas experiências, tanto as que já trazem na bagagem quanto as que proporcionarão a ele, como um verdadeiro acumulador e apaixonado por histórias.

E como Ginny tem um casamento frustrante com Humphy, pai de Carolina, não precisou de muito para que ela se sentisse atraída por ele. Entretanto, no caso dele, parece ter sido mais uma identificação de ideias e ambições do que uma atração de fato. Como se ele tivesse se enxergado nela.

Com a chegada de Carolina, os planos de Ginny de fugir com Mickey e atuar em suas futuras peças desmoronam, pois ele se vê atraído pela moça, fazendo com que Ginny entre cada vez mais em estado de decadência.

O comportamento dela, pra maioria do público, pode soar como intenso demais, histérico demais, possessivo demais, dentre outras características que são geralmente associada a mulheres, na sociedade condicionada a ser volúvel, desapegada e sem emoções, na qual vivemos.

Mas e se fosse com você? E se fosse você que estivesse suportando por anos uma vida na qual odeia e de repente aparecesse alguém que além de representar uma salvação para todos seus infortúnios, te desse o apoio que precisava pra recuperar seus sonhos perdidos e se reencontrar, mas depois descobrisse que tudo não passava de mais uma ilusão, dentre as inúmeras que já tinha acumuladas pra remoer?

O desespero de Ginny poderia ser meu, seu, nosso, de qualquer um. Todos que já foram sonhadores um dia e assistiram seus anseios se transformarem em mera farsa, se sentirão tocados com essa personagem.

A história de Carolina prende Mickey, fazendo-o mudar de planos em relação a Ginny. Com isso, ela fica transtornada em ser abandonada pelo amante e incorpora uma personagem cética e artificial. A maquiagem fica borrada, usa vestidos e jóias da época em que atuava no teatro enquanto encena diálogos teatrais bêbada.

Ela mascara sua dor tanto pelo fim do relacionamento, quanto pelo que fez com sua enteada. Sua personagem termina fracassada, sobrevivendo de resquícios do seu passado, assim como a desgastada Coney Island, cidade que se tornou um retrato da tentativa diária de manter um sonho que já morreu.

Woody Allen não traz nada de espetacular em “Roda Gigante”. Traz elementos que já trabalhou em outros filmes, como personagens ligados ao cinema ou teatro e que valorizam discussões filosóficas, literárias etc. O enredo em si não tem nada demais, o que favorece o filme são os personagens e os atores por trás deles. Todos estão extremamente bem em seus papeis.

Além disso, as cenas são muito realistas, retratam bem o cotidiano de várias famílias que existem por aí. Enquanto uma briga está acontecendo na sala, outra discussão se desenrola no quarto e tudo ao mesmo tempo. Quem tem família com muitos problemas e adepta a barracos constantes pode vê-la refletida na convivência entre os personagens durante o longa, pois representa fielmente o quanto alguns lares podem ser conflituosos. Tornando, assim, o filme, com um apelo popular extraordinariamente forte.


Recentemente, Woody Allen defendeu Harvey Weinstein, que foi acusado de assédio sexual. Allen tem um passado marcado por denúncia de abuso sexual pela própria filha, Dylan Farrow. Vez ou outra, Dylan Farrow se pronuncia e denuncia seu pai, mas nunca aconteceu nada com Allen, nem na época — a denúncia foi para o tribunal e ele não foi punido — , nem agora.

O que vemos é Allen sendo mantido entre diretores renomados, cujos filmes são amplamente divulgados e produzidos. Não houve e nem há nenhuma punição para ele. Seu papel como homem abusador e culpado é ofuscado por ser considerado um dos maiores gênios do cinema.

Por outro lado, de um tempo para cá, seus filmes vêm sendo criticados pela qualidade, que segundo os especialistas, está bem inferior ao trabalho que ele costumava fazer, sobretudo no início de carreira. Contudo, independentemente dos fracos filmes que vêm fazendo, grandes atores continuam trabalhando com ele e seu nome permanece aceito (Assim como Johnny Deep permanece na franquia de “Animais Fantásticos”).

Diante disso, fica o questionamento: se os tempos estão mudando e as mulheres estão gritando, por que, então, Allen não sofre nenhuma punição?


¹Link da matéria: Dylan Farrow denuncia revolta seletiva
²Carta de Dylan Farrow: Filha adotiva de Woody Allen detalha estupro que sofreu do cineasta

Texto feito em parceria com Laís Marcoje.

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