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Rut é um grito de que não estamos sozinhos na luta contra a depressão

Wonderful Wonderful, álbum lançado pelo The Killers em 2017, foi criticado por alguns com o discurso de que esse novo som proposto pela banda simplesmente não satisfazia. Rut foi, especificamente, alvo. Para mim, entretanto, é uma das mais relevantes músicas do novo álbum.

Assumidamente, Rut é sobre a depressão da mulher de Brandon Flowers, Tana Mundkowsky, que, ainda esse mês, falou um pouco mais sobre a sua experiência. Com um parágrafo publicado no Instagram, Tana sintetizou o quanto Rut é relevante para um cenário pouco otimista de doenças mentais.

Pouco otimista porque estamos cada vez menos pacientes e empáticos frente a quem realmente não está bem. Há, sim, uma idealização que tenta torná-la poética. Depressão não é poesia, e você pode sair dela. Não é fácil, é preciso muito apoio, mas é possível.

O clipe, que você pode ver abaixo, mostra um pouco do sentimento de solidão, que é parte, mas não toda, a doença.

Don’t give up on me
Cause I’m just in a rut
I’m climbing but the walls
Keep stacking up

Nós sabemos quando alguma coisa está errada. Sabemos quando não estamos bem e, se já temos alguma experiência, conseguimos identificar quando estamos especialmente ansiosos ou tristes, ou quando estamos procurando algum meio de escapar do que estamos sentindo.

Às vezes, queremos fugir e achamos que estamos incomodando, às vezes as expectativas dos outros e a nossa cobrança interna de sermos boas companhias pesam. Às vezes conseguimos achar uma forma de ficarmos bem; outras, não.

Principalmente, estamos tentando não desistir de nós mesmos, e queremos muito que também não desistam da gente. Queremos que acreditem no quanto estamos lutando para ficarmos bem, mas também que nem sempre sentimos que estamos sendo bem-sucedidos. O sussurro inicial se repete em vários momentos na música, e é um pedido para que não nos deixem sozinhos, porque estamos tentando melhorar.

Can’t keep my mind off
Of every little wrong
I see the mouths are open
But I can’t hear the song
I’ve done my best to fill ‘em
But the cracks are starting to spread

E melhorar é um processo longo, que exige uma cobrança menor sobre nós mesmos que nem sempre conseguimos pôr em prática. Existe um sentimento de culpa que permeia todas as nossas ações; que nos faz ficar repensando todos os nossos pequenos erros — coisas do dia a dia, como uma palavra dita do jeito errado em um momento aleatório — , e perdemos muito tempo remoendo o quanto não fomos (nem somos) perfeitos.

Nos sentimos um tanto anestesiados — não frente ao que sentimos, mas frente ao que está ao nosso redor. Ficamos tão centrados no que os outros estão pensando e sentindo a respeito de nós, ou sobre como estamos nos sentindo, que o resto se apaga em uma nuvem que nos afasta da realidade e nos leva para um ciclo interminável de pensamentos ruins.

A luta está em cada frase, quando tentamos preencher o vazio e a inquietude, mas acabamos frente a frente com os dois. Porque não conseguimos fingir para sempre que está tudo bem.

I can’t keep pretending
This next stop isn’t mine
The truth is on the table
And someone’s gotta sign
I’ve done my best defending
But the punches are starting to land
I’m sliding into something
You won’t understand

E, quando realmente não está, às vezes nos questionamos se não chegamos ao nosso limite. Será que esse não é nosso ponto? Até quando podemos continuar tentando antes de desistir? Como tomar essa decisão? Como ela pode afetar pessoas que queremos bem e que amamos? Como definir que, sim, demos todo o nosso melhor e não temos outra saída?

Não são coisas que conseguimos colocar em palavras, nem são coisas que acreditamos que alguém vai entender. E, lembram do sussurro? Precisamos dele mais que nunca. Precisamos que mais alguém esteja lá, conosco. Precisamos não estar sozinhos.

So, I’m handing you a memory
I hope you understand
That steadily reminds you
Of who I really am

Porque sabemos que somos melhores do que isso, e gostaríamos que os outros também lembrassem disso para que não desistam de nós. Do melhor que podemos ser. Não somos a depressão, não somos a ansiedade. Não somos experiências ruins, não somos traumas, não somos os erros.

Eles estão, sim, na nossa história. Eles fazem parte do que vivemos. Os traumas, os erros, as experiências ruins; a ansiedade, a depressão. Mas eles não nos definem. Eles são partes, que vão embora se resistirmos tempo suficiente; eles não são o todo.

O todo, o inteiro, esse sim é poético. Porque não existe poesia melhor que o bastar para si mesmo, que ser completo independentemente dos defeitos.

Saca só isso aqui

Essa música fez sentido para mim desde a primeira vez que a ouvi. Senti que alguém entendia exatamente o que eu já passei, como já me senti, o que já pensei. Ela foi um abraço, porque me lembrou também o quanto foi possível deixar tudo isso na história. Um abraço porque fui compreendida.

Mas um trecho ficou em aberto, e minha interpretação não chegou nele de imediato. O trecho é este:

This city’s always breathing
I wish that it would die
The kickbacks and the bachelors
The fever for the velvet rope
The money from my mother’s men
I’m not like her
You’re not like them

Acontece que faltava informação. Quando Tana Mundkowsky escreveu aquele parágrafo sobre sua experiência, os pontos se ligaram. Sua mãe a teve quando tinha apenas 17 anos, e sempre a culpou por isso. Dentre as experiências ruins de Tana, está abuso sexual. “I’m not like her/you’re not like them” tem uma carga bem diferente agora, não é?

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