Literatura e História

Se a literatura é por nós, o que será contra?

Quantas vezes já ouvimos que um livro pode mudar o mundo, que a literatura pode modificar o rumo da humanidade e transformar nossas sociedades em algo melhor, renovando-a? Mas quantas vezes o sentimento de que as coisas vão de mal a pior nos toma conta e a literatura parece não fazer diferença nenhuma.

Nem tão ao mar, nem tão a terra. A verdade é: “desde que o mundo é mundo”, antagonismos, como o bem e o mal, convivem. Violência, roubo, exploração, guerra, assassinatos não é uma invenção desse século ou do anterior. Embora, atualmente, a violência tenha aumentado. Porém, outras questões precisam ser pensadas como o aumento gigantesco da população e da marginalização, entre outros.

Existe algum sentido nessa relação explicitada até aqui? Se a literatura pode nos tornar pessoas melhores, questionadoras, mais humanizadas, o que está acontecendo? Ela perdeu o seu poder de transformação?

Colocando os pés no chão e deixando de lado qualquer tipo de previsão apocalíptica, a realidade é que a literatura não controla o mundo e uma vasta gama de outros fatores influenciam nossas sociedades. Estes relacionados às questões culturais, sociais, políticas, econômicas. Todas interligadas, é bem verdade.

A ação imediata da literatura acontece no âmbito individual e isso é extremamente difícil de medir, leva os leitores a pensarem, mas é uma ação no subconsciente. No entanto, na longa duração, somadas as influências individuais, é possível depreender que um livro ou livros de uma teoria tenham incitado um grande grupo de pessoas.

Por exemplo, os livros de Marx até hoje ajudam a questionar nossa sociedade e formar opiniões. Entretanto, as resultantes são diferentes. A cada um é permitido pensar, questionar e agir de alguma forma, mesmo que tenham sido despertados pelo mesmo livro.

Em certa medida, é possível encontrar grupos que ajam conjuntamente inspirados por livros e teorias, mas o fato de existir discussões sobre os temas dessas obras e a institucionalização de um estatuto ou regras revela que, realmente, não são todos que pensam igual.

Aproximações existem. Talvez a influência de uma pessoa leve a coesão, assim como as regras, mas na raiz do pensamento há divergências, assim como na prática desse pensamento, principalmente pelo contexto e nuance culturais diferentes de cada um.

Agora, por que essa longa explicação? Porque, é cada vez mais claro que a literatura não vai agir igualmente em todas as pessoas. Há aqueles que irão ler e não se sentirão incitados a mudar suas atitudes e mudar o mundo; outros que lerão, mas por um motivo ou outro, não se preocuparão com sua sociedade; há os que buscarão apenas o entretenimento com uma boa leitura sem ter a intenção de racionalizar; e, ainda, os “tocados” pelo poder da literatura, agirão de formas diferentes.

Outro ponto importante é a variedade de temas, há livros que incitam a violência (sem querer questionar se há livros e temas errados, há apenas livros) e também se um autor realmente quer que seu livro contribua para alguma coisa ou não. Isso é perfeitamente possível.

E não estou necessariamente falando somente dos livros de auto-ajuda, mas também de livros que abordem temáticas político-sociais em romances, poemas, ensaios, etc.

Por fim, entramos em um outro ponto. Supondo que há muitos livros que possam contribuir para um mundo melhor, de nada vai adiantar se estes livros não forem lidos e seus ideais não forem repassados, mesmo que cada um entenda de uma forma, embora exista uma certa coesão.

Uma pesquisa feita em 2012 — Retratos da Leitura no Brasil — encomendada pela Fundação Pró-Livro e pelo Ibope revelou que o número de leitores no país caiu em quatro anos, 9,1%. Em 2007 a população de leitores era de 95,6 milhões, em 2011 o número caiu para 88,2 milhões. Além disso, os leitores leram em média 1,85 livro nos três meses anteriores à pesquisa.

Portanto, a literatura pode e deve mudar o mundo, mas ela não fará isso sozinha. Inclusive, outros fatores podem impossibilitar que ela realmente venha a ser um agente transformador. Mas, uma coisa é certa, se ela consegue agir individualmente, cabe a cada leitor questionar sua sociedade, seu cotidiano e enxergar o que precisa ser mudado ou não, e agir, ainda que nos pequenos gestos, na busca de algo melhor.

Dessa forma, a literatura, enquanto influencia homens, poderá influenciar também outras áreas (economia, política, social, cultural, já que estão interligadas com a literatura) e pessoas de poder, para uma mudança ainda maior.

28 anos, professor universitário e historiador. Apaixonado por futebol, comida, viajar e rock 'and' roll.

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