Teatro

Sete vezes Elza

Uma das figuras mais extravagantes, talentosas e de estilo ímpar da MPB chama-se Elza Soares. Surgida em 1959, com a recriação do samba, Se acaso você chegasse, do repertório de Cyro Monteiro, ela chegou e arrasou.

Aliás, seu lado “cheguei” a persegue a vida inteira, pois onde quer que Elza esteja, é impossível não notar a sua presença. Além da plástica corporal, que se manteve enxuta durante anos da sua vida, sua voz única – rouca e rítmica – mais parece um instrumento de percussão quando canta samba.

Tudo isso, além dos seus “scats”, deu uma forma inteiramente nova aos dois estilos de samba que estavam em voga quando ela surgiu, o samba de raiz e a bossa nova. Elza criou um estilo próprio que foi chamado, inclusive, de “bossa negra” para implicar com a bossa “branca” feita pelos riquinhos da zona sul do Rio de Janeiro.

Com o passar do tempo, Elza Soares modernizou-se ainda mais.

Considerada uma das Divas da MPB, em 1999, foi eleita pela Rádio BBC de Londres, a cantora do milênio. Mas nem sempre foi assim. A ascensão da cantora teve momentos extremamente adversos do ponto de vista social, sentimental e político, quando o país vivia a ditadura militar.

Hoje, com 60 anos de carreira e 80 anos de idade, ela continua se reinventando. Uma voz dissonante de uma mulher que já teve sua história, da qual o craque de futebol Garrinha faz parte, contada no cinema e no teatro, em 1999 e 2000, com o musical Crioula, numa das versões de Charles Möller e Claudio Botelho e texto e direção de Stela Miranda.

Agora, em pleno século 21, volta a ser homenageada, no musical Elza, uma realização da Sarau Produções, em cartaz no Teatro Riachuelo Rio – Centro, com texto de Vinícius Calderoni, direção de Duda Maia e Direção Musical de Pedro Luís.

E a pergunta que não quer calar é: se a personagem em questão é a mesma estrela Elza Soares, o que essa montagem traz de diferente em relação à montagem anterior? Tudo. O tratamento musical do espetáculo atual é de primeiríssima qualidade. Pedro Luís consegue aliar a sua experiência com percussão no Monobloco no Rio de Janeiro ao batuque, ao swing e à negritude de Elza, alcançando um resultado primoroso. O ritmo sai pelos poros de todo o elenco e da orquestra.

Já a dramaturgia, que costuma ser um ponto fraco da maioria dos musicais que homenageiam grandes nomes da MPB, não foge à regra e apresenta-se tímida, ficando, inclusive, em segundo plano em alguns momentos. Em se tratando de Elza Soares, isso surpreende, pois, sua vida é repleta de dramas e tragédias, o que permitiria criar uma peça bastante densa, mas o espetáculo acaba sendo um tributo musical.

Sete vezes Elza - peça de teatro

O musical de agora

O musical anterior tinha uma carga dramática um pouco mais forte. O Elza 2018 é, quase o tempo inteiro, uma narrativa, já que o drama hoje tende a ser mais desdramatizado e a questão dialógica é diluída em narrativas nas quais a própria personagem é narradora, sujeito e objeto da ação, formato escolhido pelo autor Vinícius Calderoni.

O Elza do século 21 está alicerçado em uma carga ideológica intensa e emblemática, porque Elza Soares representa uma figura icônica, sobretudo, nos dias atuais, em que vivemos retrocessos políticos, atitudes de racismo e uma onda crescente de violência contra a mulher, problemas que Elza conhece de perto.

O musical traz sete Elzas fracionadas, cada uma em uma fase da vida, e, ao mesmo tempo, uma Elza só, sendo Larissa Luz uma espécie de Elza Soares protagonista, pois ela absorve a musicalidade, a malandragem, o morro que existe na maneira de falar de Elza Soares. A atriz apresenta corporeidade vocal e gestual perfeitas e, se fecharmos os olhos, pensamos estar diante da Elza Soares em pessoa no palco.

O espetáculo é feminino e, também, feminista, sendo um manifesto em defesa de todas as mulheres, uma denúncia contra o feminicídio e contra a discriminação, principalmente, à mulher negra.

Com recursos cênicos simples, mas repletos de teatralidade, e uma direção de movimento competente de Duda Maia, a vida de Elza Soares é recortada e contada por essas 7 Elzas: Janamô, Júlia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim e Larissa Luz, sendo esta, sempre, a destrinchadora da ação.

Duda Maia elege baldes e latas d’água como os signos fortes para representarem, brilhantemente, a vida de Elza Soares, nos tempos em que ela vivia na favela de Vila Vintém. Tais elementos cênicos intensificam a encenação e o trabalho corporal e dançante das atrizes, empreendendo dinamismo, estética e teatralidade ao espetáculo.

Os arranjos musicais de Letieres Leite são modernos e arrojados como Elza Soares, e a iluminação de Renato Machado consegue uma adequação tal que, além de ser uma luz de show musical, também conta uma história. A ideia de colocar lâmpadas de led dentro de baldes, que funcionam como canhões de luz para iluminar as Elzas mutuamente, foi genial e cria um efeito sensacional.

O espetáculo é extremamente frontal. A orquestra e as Elzas parecem estar sempre em uma tribuna ou palanque reivindicando o direito de serem o que quiserem ser, o que representa um contraponto curioso em relação a uma Elza, hoje, debilitada e na condição de cadeirante, em virtude de cirurgias feitas na coluna, mas que, ainda sim, grita e reivindica como se estivesse de pé. E é de pé, encima dos baldes e latas, que as Elzas da ficção apresentam seu teatro manifesto repleto de canções e vozes lindíssimas e dilacerantes.

Todas mulheres, todas negras, todas talentosas e todas Elza.

Assim como toda mulher destemida foi um pouco Leila Diniz. Toda mulher negra destemida é um pouco Elza Soares.

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