Revista

Só EU que não gosto de carnaval?

Sempre fui a implicante do carnaval! Enquanto todos esperam ansiosamente por essa época do ano para descansar da estressante rotina curtindo os blocos de rua e se divertindo com a festa do “pode tudo”, não me importava nem um pouco com o carnaval.

Nada contra os feriados prolongados, só nunca me empolguei com a festa em si, com a exceção de quando eu era criança. Mas mesmo nessa época, acredito que lá no fundo já existia uma rixa com o carnaval enraizada dentro de mim, só não tinha consciência disso naquele tempo. A prova disso é que eu cismava de me fantasiar de bruxa e sempre saía com cara de mau-humor com a vida em todas as fotos.

O tempo foi passando e a implicância não se desapegava de mim. Blocos de rua? Aglomeração de mijo e sujeira na rua? Marchinhas “ultra divertidas e inovadoras” martelando na minha cabeça? (aliás, depois dizem que a música pop que é chiclete e todas iguais às outras…) desfile de escola de samba na tv?

Globeleza linda e diva sambando na cara das inimiga? Concurso no caldeirão do Huck pra escolher a nova passista (ou seja lá qual for a função que a mulher vai ocupar) na escola tal? DEUS QUE ME LIVRE E GUARDE!SOCORRO JESUS! Prefiro ficar presa no quarto branco do BBB!

Não pensem que sou adepta da “hipstermania” ou que sou integrante do grupo exclusivo e super fechado da sociedade, que se considera diferentão, cult, alternativo, intelectual, blasé, lordes da cultura anti-massa, avessos à modinhas, porque é muito pelo contrário.

Sou apaixonada por novela desde pequena, assisto vários programas da globo, (e acho que tem muita coisa boa e outras nem tão boas assim, como em qualquer outro canal) não escondo meu vício em Big Brother de ninguém (confesso até que já chorei com alguns discursos de eliminação do Bial), saio correndo pra ouvir, com todo meu desespero, quando sai um novo hit da Anitta e adoro cantar as músicas de sofrência do Luan Santana no chuveiro.

Porém, o carnaval não me descia. Parecia algo espiritual; o santo não batia como se fôssemos inimigos de outras reencarnações ou que alguém tinha me assassinado em época de carnaval com uma cornetada na cabeça.

Seja lá qual for a explicação, a rixa era tão grande que eu estava ficando cega e nem percebia. Logo eu, que adoro repetir que devemos sempre enxergar os prós e os contras de tudo, estava vendo o carnaval só pelo prisma da negatividade.

A cegueira era tão absurda a ponto de o outro lado da história ficar invisível aos meus olhos. Até que resolvi, finalmente, parar com o mimimi preconceituoso (porque sim, eu estava sendo aquilo que mais critico nos outros) e me questionar sobre o porquê do carnaval atrair tanto as pessoas como se fosse algo hipnótico. O que será que ele tem que agrada tanta gente?

O que existe em comum entre um homem travestido de mulher, uma mulher vestida de homem, um adulto fantasiado de Teletubbies, uma criança vestida sexy à la Carla Perez (era a fantasia preferida das meninas na minha época), um nerd com músculos de Huck, um adolescente com cabelo tricolor, um senhor de cuequinha de oncinha com uma chupeta na boca e uma avó de fio dental andando livremente na rua?

Todos, sem escapatória, sofreriam represálias. Seriam taxados de gays, lésbicas, pedófilos, tarados, revoltadinhos, punks, piriguetes, maníacos com síndrome do Peter Pan e sem vergonha na cara. Mas no carnaval não! No carnaval, no máximo seriam motivo de piadas, mas nada muito grave. O carnaval é a festa do liberte-se e seja quem quiser!

Se você tem algo que esconde até pra si mesmo, pode expor pro mundo ver sem chamar atenção. Afinal, em época de carnaval ninguém leva nada a sério mesmo. Tudo passa a ser visto de forma leve, mesmo que seja pesado. O que era sigiloso se transforma em algo banal, cotidiano até, tamanha a despreocupação dessa época do ano.

É a festa dos sonhos reprimidos, dos desejos secretos e proibidos, da recuperação de um passado que não volta mais, do gostinho da infância perdida, da saudade da inocência irrecuperável e da ilusão de que esta ainda pode ser sentida e vivenciada mesmo depois dos primeiros fios brancos darem sinal de fumaça e principalmente, da essência explícita e da permissão pra ser feliz sem julgamentos.

O carnaval é a única época do ano que todos podem escancarar seus ids sem medo da condenação social ou dos próprios superegos internos que insistem em nos fazer ter preconceito com nós mesmos. Se você sempre sonhou em ser uma coisa ou se você já é essa coisa, a hora é essa! Porque quando a festa acabar, o sonho também vai acabar. Vai ser hora de acordar do conto de fadas e voltar pro mundo real.

A carruagem vai voltar a ser abóbora, suas roupas vão perder o ar de faz de conta e você vai continuar vestindo uma máscara, só que a mascara social. Acabou a brincadeira,Sr. e Sra. foliões. E nem adianta correr atrás do sapatinho de cristal, porque as doze badaladas da realidade já foram tocadas e a essa hora sapatinhos de cristal nem existem mais.

Acaba a folia e vai cada um pro seu canto voltar a ocupar o papel de vítimas da vida. Só resta esperar a liberdade voltar de viagem no próximo ano, no outro carnaval. Enquanto isso, cada qual escolhe a persona que lhe dói menos e segue com a vida na medida do possível.

Então porque não levamos a mensagem do carnaval para além dele? A festa acaba, mas o que está por trás não precisa parar por aí. Vamos focar no essencial do carnaval e levar isso pro resto do ano.

Você nem precisa gostar de carnaval, senhores diferentões, só precisam enxergá-lo com outros olhos e parar de focar só no lado ruim das coisas. Afinal, as verdadeiras intenções estão muito além do que o nosso olhar superficial pode captar. Basta só abrirmos nossas mentes que automaticamente, o resto se mostrará como numa bola de cristal.

Eu garanto, por experiência própria, que valerá a pena. Se até eu consegui notar os prós no meio de todo ar carnavalesco, todo mundo também é capaz.

Pra essa marchinha vou dar um desconto só porque a Anitta regravou ❤ HAHAHA #Grinchdocarnaval

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!