Saúde Mental

Sobre ciclos, recomeços e a ansiedade de não saber o que virá

Tendemos viver a vida em ciclos. Nascemos e morremos, em um aspecto macro; dormimos e acordamos, em micro. Todos os dias têm 24 horas, e os meses variam de 30 a 31 dias (exceto fevereiro). Os anos têm por volta de 12 meses, 365 dias, 8.760 horas, 525.600 minutos e não vamos tentar contar os segundos.

Terminar um ano é, nessa visão, necessariamente encerrar um ciclo. É por isso que 31 de dezembro para 1º de janeiro traz um sabor novo à língua. É aquela magia de ainda ver as luzes piscando do Natal, com a recém saída do velhinho de vermelho que prometeu trazer presentes, e o amor fingido de alguns amigos ocultos e abraços na virada para o dia 25, o “Feliz Natal” padrão cujo significado nem é mais tão importante assim, mas repetimos por cuidado à tradição.

Mas a gente ainda sente, não sente? O friozinho na barriga que mostra o ponteiro pronto para dar meia noite. O ar de que vai tudo ficar bem, porque sobrevivemos a mais de 500 mil minutos. Os planos, as metas, os objetivos, os sonhos. Parece que finalmente temos permissão para sorrir: atingimos a linha de chegada.

O Roberto Carlos que nos dá o conforto de algo rotineiro, os fogos que estouram nos nossos ouvidos e nos faz esquecer de tudo por uns minutos. Ano Novo é, sim, recomeço. É, sim, a oportunidade. É, sim, um momento de paz. É assim que deveria ser, independentemente de você acreditar em cor de roupa, nas ondas puladas, nas uvas jogadas ao mar junto com flores e promessas e pedidos.

Mas, se você é um pouco como eu, é também o desconhecido. É quando a ansiedade bate à porta e te faz recorrer a qualquer artimanha para prever o que vai acontecer – mesmo quando você acredita que isso é impossível. O desconhecido dá medo, e a ansiedade paralisa. O coração aperta, o recomeço bate à porta e é tão difícil abrir que a gente senta e encara.

Olhar as 8 mil horas que nos aguardam pode também ser assustador. O que vai mudar? O que vai continuar? Quais as dificuldades que nos aguardam? Quais as surpresas? Qual peso vamos ter que segurar? Esse ciclo vai ser gentil e doce, ou vai nos ensinar daquele jeitinho que nos faz sentir tão derrotados? Vamos sobreviver mais 365 dias?

Dizem que dar o primeiro passo é sempre o mais difícil. E é com o emocional balançado que a gente olha para o passado e para o futuro entre a euforia e a desolação. O dia vai raiar, e talvez você tenha passado a noite quase toda dormindo em um banco de uma praia só para, no momento certo, levantar, aplaudir o sol, ir para casa e recomeçar.

Do jeito que for, do jeito que der. Talvez isso seja o suficiente para te acolher e acalmar. Talvez seja o suficiente para mim.

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