Críticas,  Literatura

Resenha | Tartarugas até lá embaixo, de John Green

“Qualquer um pode olhar para você, mas é muito raro encontrar quem veja o mesmo mundo que o seu.”

Aza Holmes é uma adolescente quase normal. Vai para o colégio todos os dias, almoça com sua melhor amiga, Daisy, e volta de carro para casa. Paga lanches com cupons, não lê nenhuma das fanfics que Daisy escreve e, quando a saudade do pai aperta, ela pega o celular que um dia foi dele e passeia pelas fotos.

O pai faleceu há alguns anos, e a mãe dá aula de matemática no mesmo colégio que Aza estuda. Quando mais nova, ela foi para um acampamento de verão, onde conheceu Davis, um garoto da mesma idade dela, mas muito mais rico.

Sua casa vale, literalmente, muitos milhões de dólares — com direito a um zoólogo trabalhando em um laboratório, uma governanta que deixa toda a comida cuidadosamente preparada, e uma sala de cinema secreta simplesmente incrível.

Todos esses detalhes ela só descobre quando o pai de Davis foge de casa pouco antes da polícia chegar e é dado como desaparecido. A recompensa para quem o encontrar é de cem mil dólares, valor que Daisy considera o suficiente para nunca mais precisar vestir a roupa do Chuck E. Cheese na vida — e, quem sabe, economizar para pagar talvez 15% da faculdade.

“ — Um dos desafios da dor, seja física ou psíquica, é que só podemos nos aproximar dela através de metáforas. Não temos como representa-la como fazemos com uma mesa ou um corpo. De certo modo, a dor é o oposto da linguagem.”

É assim que Aza e Daisy engatam numa missão que as leva diretamente para a casa de Davis. E é assim que eles se reaproximam. Mas, como eu disse, Aza é uma adolescente quase normal. A definição é inteiramente dela, que em vários momentos se refere ao TOC como um reflexo de uma mente maluca.

Uma interpretação que, para quem está de fora, é claro que não é verdadeira, mas, estando na mente da menina (e, como o livro é em primeira pessoa, estamos), conseguimos entender um pouco como ela se sente.

Acho que, mais que um romance ou amizade, Tartarugas até lá embaixo é um livro sobre uma garota que tem TOC e precisa lidar com ele. Uma garota que vê sua vida inteira definida pelos seus pensamentos em ciclos infinitos, que repete para si mesma um tanto que sua psicóloga diz e um tanto do que ela mesma acredita em uma conversa interna que o próprio leitor percebe o quanto é exaustiva.

Só que não é só isso, ainda que o tema central seja exatamente esse. É um livro sobre aceitação e sobre a própria vida. Calma, vou explicar: Aza passa tanto tempo pensando no quanto não é normal e, portanto, não pode ter uma vida normal, que deixa de fazer coisas básicas para ter um dia a dia mais tranquilo.

Por exemplo, ela não acredita muito nos remédios que sua médica a manda tomar, portanto toma apenas de vez em quando. Por sentir vergonha do próprio TOC, ela também não conta sempre a origem de seus pensamentos ou até onde eles vão, filtrando as coisas que fala.

Ela custa a se aceitar como é, e precisa de um tempo para assimilar que, provavelmente, vai ter que conviver com ele da melhor forma possível pelo resto da sua vida.

“Tendo já passado por uma boa dose de terapia cognitivo-comportamental, você diz a si mesma: Eu não sou meus pensamentos, embora no fundo não saiba exatamente o que você é.”

O que, afinal, define quem somos? “Não precisa ter medo desse pensamento. Pensamentos não são ações” diz a médica de Aza em determinado momento. A questão é: o quanto nossos pensamentos determinam nossas ações?

Claro que ao longo de um dia pensamos em coisas suficientes para ter certeza de que não realizaremos todas, mas… E se os pensamentos forem constantes? E se eles disserem que, por exemplo, você está suja e precisa se limpar?

E se eles disserem que o melhor jeito de se limpar é esfregar sua pele até que pareça não sobrar muita coisa além de uma vermelhidão absurda? São linhas de pensamento que a personagem enfrenta e que, quem sabe, você ou eu tenhamos enfrentado em algum momento.

Ao mesmo tempo, John Green fala sobre a vida. Sobre amor, sobre saudade, sobre o quanto as pessoas são relevantes, mesmo quando queremos ficar sozinhos. Pedimos, constantemente, que nos deixem e paz, mas e se de fato deixassem? Seríamos mais felizes? Provavelmente não. Seríamos apenas sozinhos. Perdidos em pensamentos, talvez não de forma controlada. O amor está nisso também, em quem não permite que fiquemos sozinhos.

Mais que um “felizes para sempre”, Tartarugas até lá embaixo é sobre a continuidade da vida. Hoje as coisas não estão bem, mas amanhã podem estar. Ela não nos espera, não nos dá tempo para respirar sempre. A única certeza que temos é esta: ela vai seguir, queiramos ou não. As lembranças, as saudades, são nossa carga de paz, felicidade, tranquilidade. Mais importante que isso, entretanto, é saber que temos o agora. E, com ele, podemos fazer qualquer coisa.

“Você se lembra do seu primeiro amor porque os primeiros amores mostram — provam — que você pode amar e ser amada, que nada nesse mundo é merecido exceto o amor, que o amor é ao mesmo tempo como e porque você se torna uma pessoa.”


NOTA ★★★★

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