Séries

O que faz This is us uma série tão única

Histórias de amor são as mais gostosas de contar. Elas costumam ter sua cota de drama, uma pitada de comédia e terminar com um “e viveram felizes para sempre” — e, digam o que quiserem, não conheço ninguém que não almeje um happily ever after. Se é uma história de amor que você espera encontrar em This is us, está no caminho certo.

A história de Jack e Rebecca Pearson (Milo Ventimiglia e Mandy Moore) começa quando ambos estão na casa dos vinte anos. Mais que uma paixão avassaladora com muitos altos e baixos, encantos e desencantos, o que eles encaram é pura e simplesmente a vida. Isso tudo sob a ótica de um relacionamento estável, que se sustenta a partir do companheirismo, do diálogo e, é claro, do amor.

Eles não concordam em tudo, brigam às vezes e não acertam sempre, mas não são os altos e baixos que os definem: é a leveza do romance, a firmeza de quem sabe o que (e quem) quer, e o quanto eles realmente torcem um pelo outro e se aceitam como são. É mais ou menos essa mesma dinâmica, ainda que explorada em outros aspectos, que encontramos na relação de Kate e Kevin, Randall e William.

Essa não é apenas a história de quatro pessoas que comemoram aniversário no mesmo dia. Intercalando passado e presente, cada episódio trazendo alguma novidade e respondendo alguma pergunta, This is us mostra de forma muito completa como o passado influencia quem somos hoje e brinca com a idealização dos relacionamentos. Como? Bem, ao mesmo tempo que constrói uma imagem impecável das personagens — são pessoas que gostaríamos de conhecer e ter por perto — , a quebra de um jeito que não cai no clichê.

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Em determinado episódio, Rebecca diz: “Jack não foi um homem perfeito, mas chegou bem perto disso”. E talvez seja por aí: não temos dúvidas de que ele foi um ótimo pai, de que amou de verdade Rebecca e que seria capaz de qualquer coisa por ela, de que foi um homem que realmente tentou fazer o que era o certo e justo.

Entretanto, outra gama de problemas surge e mostram que, mesmo diante de tudo isso, ele cometia erros, e ainda vivia um pouco nas sombras dos erros que seu pai cometeu.

Rebecca por sua vez também não é perfeita. Quando seu terceiro gêmeo morre, temos a impressão de que, apesar da dor, ela se mantém inteira, como se não desabasse a ponto de não conseguir tomar decisões. E é claro que não é exatamente isso que acontece.

Ela, sem dúvida, foi uma ótima mãe e se esforçou ao máximo para educar bem os filhos (e conseguiu), mas isso não a livra de, ao ser protetora, exagerar na cota. Becca se esgota, quer correr atrás do sonho de ser cantora, e precisa balancear a vida de mãe de três filhos com a profissional.

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Kate (Chrissy Metz) não é apenas uma mulher insatisfeita com o próprio corpo. Ela é gorda, sempre esteve acima do peso, e desde cedo aprendeu que nem todo mundo vê isso de forma natural. Na verdade, seu peso influenciou diretamente sua autoestima: a mãe, uma imagem de mulher que Kate tenta por muito tempo seguir, é magra e, às vezes, preocupa-se tanto com o peso da própria filha que deixa a impressão de que ser gordo é necessariamente ruim.

Não à toa, Kate é uma das personagens que mais se desenvolve. Sua baixa autoestima determinou tudo: os amigos que teria, os caras com quem sairia, tudo a que se submeteria em nome de tentar achar alguém que a aceite mesmo quando ela não se aceita; e cabe a ela fazer isso mudar.

Seja ao entrar em uma dieta, seja procurando um lugar que a incentive a emagrecer (imagine uma versão talvez mais suave daquele The Biggest Loser), seja aceitando seu corpo e quem ela é. Entendendo que ela é sim suficiente — para ela, para os pais, para um companheiro.

Kevin (Justin Hartley) é o cara que sempre foi popular e, adulto, ele está decidido a seguir a carreira de ator. Seu grande sucesso, entretanto, é a personagem de uma babá, uma comédia de televisão qualquer. Apesar de parecer superficial em alguns momentos, entendemos que esse é apenas um olhar desatento.

Kevin pode ser invejoso, inseguro e mimado, e isso tudo tem muito mais a ver com a pressão que ele coloca em si mesmo do que saber o que é certo e errado. Kevin erra e sabe exatamente quando errou, mas nem sempre consegue entender que o mundo não gira ao seu redor, e que ele precisa fazer a parte dele em todos os aspectos da vida, não só relacionado à carreira.

Um dos melhores momentos da primeira temporada é justo com ele, quando percebemos o quanto é muito mais do que carinha e corpo bonitos.

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Randall (Sterling K. Brown) tem uma vida estável: uma mulher que ama, duas filhas lindas e felizes e um emprego que paga todas as suas contas. E, já adulto, ele finalmente descobre quem é seu pai biológico.

O encontro por si só é emocionante, mas a relação que se constrói entre os dois, ao lado da criação que teve dos pais adotivos, é uma das abordagens mais bem-feitas que já vi. É um jogo de passado e presente mais complexo do que o que acontece com as demais personagens exatamente por ter um ponto de vista extra (o do pai biológico).

Enquanto Kate lida com os preconceitos por ser gorda, é óbvio que Randall encara os por ser negro.

É pela carga emocional e pelo bom desenvolvimento das personagens que This is us chama a atenção. Assistindo, conseguimos rir e chorar, sentir uma paz diante de como a vida pode ser doce, e entender que o mundo dá voltas, que tudo depende do que nós queremos e o quanto nos esforçamos para fazer algo acontecer. É sobre ser forte, ser feliz, ser intenso, ser inteiro e ser em conjunto. Principalmente sobre ser em conjunto.

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