Saúde Mental

Um desabafo sobre a depressão

Preciso escrever sobre isso desde quando criei isso aqui. Preciso escrever, mas nunca passo do segundo parágrafo. São muitos detalhes que precisam ser explicados, muitas situações para exemplificar o que quero dizer — e não tenho ideia de como começar. Acho que vou começar com: se alguém fala para você que está, ou esteve, em depressão, tome muito, muito cuidado com a sua resposta.

Em 2007 era uma suposição. Em 2008 tudo não poderia passar de uma fase (péssima, mas uma fase). Em 2009, começaram os remédios — e a recusa por pedir ajuda de um especialista. Fui diagnosticada com depressão por um especialista em 2011. Depressão dupla, segundo um psiquiatra, em 2012. Em 2013 as coisas começaram a melhorar. No total, foram oito anos — de 2007 a 2015 — convivendo com ela.

Só que depressão não costuma vir sozinha. A minha me trouxe de brinde as enxaquecas constantes. Enxaquecas que, em 2012, me faziam parar tantas vezes em hospitais que, no final, nenhum remédio adiantava e me mandavam embora com dor mesmo (“desculpa, não podemos fazer mais nada por você”). Mas claro que tinha dias bons, sem esse tipo de dor.

Alguns desses dias eu não conseguia sair de casa, com a certeza de que alguma coisa ruim ia acontecer. Outros eu cismava que alguma coisa tinha, de fato, acontecido e pirava sozinha. Outros estava tudo bem, até eu chegar em um lugar e, sem explicação, sentir como se estivesse tão presa que, em dado momento, só tinha uma certeza: precisava sair dali. A sensação de que o lugar está se fechando com você no meio, do tipo que o coração fica tão apertado e batendo tão forte que você paralisa.

Muitos dias eu só dormia. Muitos outros eu só comia. E em quase todos eles eu chorava. Chorava porque sabia lidar com a tristeza (você sabe quando está triste, sabe o que fazer para melhorar) e com a felicidade, mas não com aquele sentimento de vazio. De não se importar. De não querer nada, de não ser nada. Nunca consegui explicar isso: não sentir nada. As pessoas não entendem quando você fala isso, acham que tem alguma coisa ali que você não está falando. Mas não tem, e isso é desesperador.

As pessoas não entendem que depressão faz de todos nós bons mentirosos. Porque às vezes estamos apenas indiferentes, então sorrimos, fazemos piadas e fingimos que está tudo bem. Ninguém quer ouvir sobre depressão. Ninguém quer ouvir sobre isso de novo e de novo. As pessoas perdem a paciência, acham que é fácil e só você que não quer melhorar. Acham que você é uma pessoa fraca, frágil e preferem que você ignore isso quando está perto delas. E você ignora, porque senão não sobra ninguém.

Mas no momento que você ignora surge outro problema. As pessoas veem o que querem ver, acreditam no que querem acreditar. Uma vez cheguei com muita dor de cabeça no hospital, mas já estava tão acostumada com o script que não cheguei aos prantos, falei com frases curtas: estou com dor. Não consigo olhar para a luz. Não consigo ouvir barulhos. Não. Estou. Aguentando. E o médico olhou para mim e disse: então não está tão ruim, você está até falando.

Foi aí que entendi. Se você aparenta bem, as pessoas jamais vão acreditar no contrário. Você está falando, não está com dor. Você está sorrindo, não está triste. Você não pode estar sentindo nada, tem que ter alguma coisa. As pessoas insistem no que elas querem crer, porque não entendem. Porque não estão sentindo. Não sabem como é.

Isso já me incomodava. A ponto de quase não aguentar mais. O sufoco não era só interno, não era só comigo mesma. Era com qualquer outra pessoa. Em nenhum momento eu quis pena — pena só piora a situação. Mas eu queria o que um amigo, de fato, fez: ouviu o que eu precisava falar, opinou e me ofereceu uma saída. Quando você não vê a saída, às vezes só precisa que alguém te indique o caminho. E te dê a mão para você entender que não está sozinha. E é muito, muito difícil acreditar que você não está sozinha.

Mas até hoje falar sobre depressão é problemático. Estou bem, o motivo não é esse: é que ninguém acredita que de fato aconteceu. “É a doença da moda”, dizem, “todo mundo tem ou teve”. E não levam a sério. Minimizam. Te tacham como uma pessoa que adora se fazer de vítima. Poucas vezes falei sobre o assunto e recebi um abraço, um “eu entendo” ou que fosse um “o importante é que você está bem agora”. Novamente, não quero pena. Quero entendimento ou, se isso for difícil (porque é, você tem que ter passado por isso ou ter sido próximo de alguém que lidou com depressão), respeito. É um olhar completamente diferente.

É muito difícil lidar com pessoas muito próximas a você, que viram toda a situação, que estiveram do seu lado diante de tudo que você passou, falando “ué, mas você acha que essa época foi ruim?”. Não, foi ótima, por isso estava felizona, não notou? Aqueles remédios ali em cima eram brincadeira, tipo aquele chiclete que a gente compra quando é criança e finge que é remédio para tomar. Não percebeu? Tudo chiclete.

É difícil compartilhar qualquer coisa sobre o assunto, inclusive esse texto, sabendo que alguém pode ver e falar “por que você ainda fica falando dessas coisas?”. Falo porque ninguém sabe como lidar com a depressão. Se soubessem, talvez as coisas teriam sido muito mais fáceis para elas e para mim. E para outras pessoas que elas conheçam que podem estar passando por isso.

Falo porque estou cansada de perceber que falei sobre e desviei o olhar porque tenho vergonha disso fazer parte de quem eu sou. Porque tenho vergonha de admitir que foi real, foi difícil, ainda que tenha ficado no passado. Porque não tem cabimento superar anos de indiferença comigo mesma e ter vergonha de falar sobre o que faz parte de mim e me fez ser quem eu sou hoje.

Falo porque cansa ver tantas outras pessoas passando pela mesma coisa. Sentindo a mesma coisa. E não tendo ninguém para mostrar o caminho e dar a mão. Falo porque uma amiga precisou ler um livro para entender que o que eu sentia era real e vir falar comigo “desculpa, agora eu entendo”.

Falo porque as pessoas estão tão preocupadas com o próprio umbigo, tão preocupadas sobre como a história vai soar para outras pessoas, que esquecem que nada disso importa. Porque tem muita gente pedindo ajuda, precisando que tenham paciência, e ninguém tem, porque não lhe diz respeito mesmo. Porque a pessoa não quer melhorar. Porque ela é vítima.

Falo porque enquanto tiver gente com esse pensamento besta é preciso falar. Pelo simples fato de que isso afeta outras pessoas e eu não quero que ninguém passe pelo que eu passei e se sinta tão sozinho. Falo porque demorei esse tempo todo para escrever sobre isso porque tenho vergonha e receio e provavelmente medo do quanto isso pode me diminuir perante outra pessoa.

E, por fim, falo para que você entenda que, se alguém um dia falar que teve, ou tem, depressão, não é seu papel julgar ou desacreditar. Mas talvez seja a oportunidade de estender a mão e fazer a diferença na vida de alguém.

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

One Comment

  • Camila

    De tudo q vc disse neste texto,me encaixo em quase tudo.
    Tem sido muito difícil,pois afastei todos da minha volta,agora estou lidando sozinha.Pensamentos contrários tem vindo num velocidade relâmpago,tento me abster deles.Mas acredito q estão indo longe de demais.
    Obrg pelo seu texto e por compreender q é real😢
    Agradeço pela atenção.

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