Críticas,  Literatura

Resenha | Uma canção de ninar, de Sarah Dessen

Quando li a sinopse de Uma canção de ninar, da autora Sarah Dessen, tive outra impressão. Apesar de não ser meu estilo de livro, pois não costumo me interessar por esse gênero, a história me chamou a atenção por se tratar de uma protagonista diferente das que geralmente protagonizam esse tipo de história.

O livro é sobre amor, mas a personagem principal não acredita nele. Ao invés de seguir o modelo clássico da garota romântica que se apaixona fácil, sonha em se casar, ter 4 filhinhos e morar numa casa cheia de cachorros com seu príncipe encantado, Remy é o contrário disso. Sente preguiça e ojeriza só de pensar nessa possibilidade. Não perde tempo com idealizações.

Logo que terminou o ensino médio, ela só pensa em sair de casa para ingressar na universidade de Stanford e focar em seu futuro profissional. Enquanto continua em casa, só quer aproveitar o resto do verão com suas amigas, ajudar a organizar o quinto casamento de sua mãe e conhecer novos caras para se divertir e passar o tempo, mas nada sério.

Afinal, se ela nunca se prendeu a ninguém, não é agora, prestes a começar uma nova vida longe dali, que ela vai querer se apegar a alguém.

Tudo estava indo como o planejado, até que Remy conhece Dexter (nem preciso dizer que amei o nome) e as certezas que ela sempre se esforçou para manter começam a se transformar em incertezas. Antes disso, a garota nem sequer cogitava a possibilidade de realmente amar alguém.

Como essa hipótese não existia, ela nem perdia tempo questionando se essa regra “Não deixe ficar sério demais. Não deixe ele partir seu coração. E nunca, em hipótese alguma, saia com um músico” que ela criou pra si mesma podia ser quebrada um dia. Segundo ela, não havia necessidade, pois estava certa que nada nem ninguém a faria rompê-la. Porém, isso antes de Dexter surgir em sua vida, é claro.

Desengonçado, inconveniente, irresponsável e pior de tudo, músico, assim como seu pai que abandonou a família antes de seu nascimento, deixando apenas uma música em sua homenagem; Dexter representa tudo que ela sempre odiou. Então, como geralmente acontece nesse tipo de história, logo a pessoa mais improvável é a responsável por quebrar as convicções da protagonista. Até porque quem disse que existem regras no amor?

Conhecendo a família de Remy conseguimos entender o porque dela ter virado essa mulher de lata. O pai, como já disse, teve um relacionamento relâmpago com sua mãe e foi embora sem nem ao menos conhecê-la. Sua mãe pula de um casamento fracassado pra outro sem nem esperar um tempo pra se recuperar. E seu irmão, largou a vida de desajustado por causa da namorada que é o oposto dele, se tornando alguém totalmente manipulado por ela.

Através desse histórico familiar, podemos ver de onde surgiu essa aversão a músicos, casamentos e relacionamentos estáveis em geral. Remy nunca abriria mão de seus gostos e personalidade pra agradar alguém (como fez seu irmão) e nem insistiria numa ideia fadada ao fracasso como faz sua mãe. Pra ela, tudo isso sempre soou como carência e falta de amor próprio. Sempre teve pavor em ser como sua família.

Contudo, aí que está a ironia. O membro de sua família mais criticado por ela, na verdade é o mais parecido. Ela passou a vida toda fugindo de músicos porque lembravam seu pai, mas no fundo, ele é a pessoa que mais tem coisas em comum com ela.

Tanto é que até seu irmão abdicou das irresponsabilidades por amor, mas Remy continua se recusando a mudar da mesma forma que seu pai também se recusava. Como a própria canção de ninar (daí o título) feita por ele dizia, “Aonde quer que eu vá vou te decepcionar”.

É aquela velha história; quando odiamos alguém só existem duas opções; ou viramos totalmente o oposto da pessoa ou nos transformamos nela. Remy escolheu a segunda opção.

Outro fato interessante é a namorada certinha do seu irmão. Outra personagem que é mais parecida com Remy do que ela imagina. Ambas são extremamente organizadas, pontuais e responsáveis, com a diferença que uma estende essas características pra vida sentimental e a outra não. Se Remy não fosse tão cética em relação ao amor, seria irmã gêmea de sua cunhada.

Mais uma vez vemos o quanto temos tendência a criticar pessoas que são parecidas conosco, como se víssemos nossos erros refletidos nessas pessoas e exatamente por isso, elas nos irritam tanto. Porque ninguém quer olhar para alguém que nos faça lembrar o quanto somos falhos, não é mesmo?

E finalmente, temos a mãe de Remy. Escritora de best-sellers repletos de casais apaixonados e idealizações, romântica incurável e casamenteira assumida: tudo que sua filha detesta. Remy sempre enxergou sua mãe como uma mulher carente, vulnerável, ingênua, quase uma donzela em perigo, e sempre se considerou o contrário disso.

Até perceber que nem tudo é o que parece, pois não perder a fé no amor não é sinal de insegurança como ser completamente descrente também não é prova de coragem. Às vezes, os mais desprendidos são os mais medrosos, não querem se apegar por medo de sofrer e não ter condições de lidar com isso. Enquanto os mais sonhadores são os mais valentes, preferem insistir no amor e correr o risco de não serem correspondidos ou se desiludirem depois, do que viver sem esperança em nada nem ninguém e ter uma vida vazia.

Por fim, senti que esse livro poderia ser muito melhor do que é. A história, apesar de um pouco clichê (com a diferença que geralmente o homem que é o desapegado da história), até poderia ser interessante. A autora levanta algumas questões importantes, me identifico em vários pontos com a protagonista, mas acho que tudo poderia ser desenvolvido mais profundamente.

O problema não foi nem a sinopse, foi a escrita da autora Sarah Dessen mesmo, pois apesar de não ser o tipo de livro que gosto (como já disse antes), se fosse abordado de outra forma teria achado melhor. Não é um livro que te prende, muito pelo contrário. Tem muito capítulo que nem precisaria existir de tão inútil que é.

Dessa forma, a história acaba se tornando boba por causa dessa abordagem superficial dos personagens e a leitura enjoada. Não conseguia ler mais de um capítulo por dia, porque não me dava vontade de seguir adiante.

Enfim, tentei sugar o máximo que pude da história para escrever essa resenha, mas infelizmente não é um livro que indico. A premissa é boa, mas a escrita por ser fraquinha destrói o potencial que tinha. Uma pena.


NOTA — ★★★

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