Críticas,  Literatura

Resenha | Vulgo Grace, de Margaret Atwood

Uma mulher e um homem se unem em um plano para assassinar Thomas Kinnear e Nancy Montgomery. Kinnear era um homem rico, dono de uma casa espetacular para a época (século XIX) e patrão de todos os demais envolvidos na história; já Montgomery, governanta da casa, era sua amante. Pelo menos é isso que dizem os boatos, que inclusive falam sobre uma provável gravidez.

O assassino, James McDermott, foi condenado ao enforcamento e a pena foi realizada frente a um público ansioso. Grace Marks, a assassina, teve sua pena anulada, sendo condenada à prisão perpétua graças ao excelente trabalho de seu advogado. Ao contrário do que ela mesma esperava, ele não apostou na injustiça da condenação, nem usou discursos pautados em “eu não fiz isso”.

Condenada aos 16 anos, Grace tinha uma beleza que se destacava, e como uma menina tão linda poderia cometer algo tão feio? Jornais apoiavam a ideia de que, se ela de fato havia cometido tal crime, provavelmente foi por influência de James.

Ela era pura, inocente, sem capacidade para pensamentos elaborados e até mesmo opinião própria; isso a tornava, dizia a defesa, perfeita para ser manipulada. Falavam sobre como ela não sabia ler nem escrever, e sobre como era incrível com os trabalhos que lhe cabiam — costura, por exemplo. E parte da população de fato acreditava nisso. Ainda que essa crença venha sempre com um pé atrás.

Vulgo Grace, da mesma autora de O conto da aia, inicia-se depois dos assassinatos. James já foi morto e Grace é acompanhada por um médico que acredita ser possível descobrir o crime de determinada pessoa após detalhada análise de seu crânio.

Grace trabalha na casa do governador da prisão que se tornou seu lar após o acontecimento trágico, e é o primeiro ponto que vemos a mistura de medo e carinho que ela transmite.

Ao mesmo tempo que temem o que ela possa vir a fazer, sentem uma necessidade de cuidar. Exceto pelas mulheres que de fato cuidam dela na prisão — essas acreditam na sua culpa, e acreditam que a pose não passa de encenação. E talvez estejam certas.

Escrito em primeira pessoa, ressoando a voz de Marks, encontramos uma mulher inteligente e atenta. Ela sabe o que está acontecendo ao seu redor, entende tudo que falam a seu respeito e tem suas opiniões e traumas. Ela é humana, e não parece com uma personagem de um livro a qual conhecemos e julgamos a partir de certo distanciamento.

É interessante esse olhar interno, porque criamos automaticamente uma visão sobre quem ela poderia ter sido (já que a própria Atwood ressaltou que esta história é uma ficção pautada em fatos reais) e como ela poderia ter lidado com a imensidão de informações, verdadeiras ou não, que eram faladas sobre ela.

Vulgo Grace não nos dá uma resposta sobre o assassinato, mas nos deixa abertos para tirar conclusões e fazer uma aposta sobre quem foi o verdadeiro culpado. É, inclusive, um debate sobre o papel das mulheres, um retrato sobre como elas eram tratadas. A própria forma de defesa é pautada numa imagem menor que, sabemos hoje, é completamente questionável.

Grace foi liberada da prisão, e depois não ouviu-se mais falar dela. Podemos, entretanto, apostar nossas fichas em um final de vida mais satisfatório que esses anos de prisão e testes médicos questionáveis.


NOTA — ★★★

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