Teatro

A Visita da Velha Senhora: seria somente cômico, se não fosse trágico

A mais recente montagem do texto escrito em 1955 por Dürrenmatt, autor e dramaturgo suíço (1921-1990), está em cartaz no Teatro Sesc Ginástico. A peça, que conta com um elenco enorme, fenômeno raro em tempos de desmanche da cultura, tem como protagonistas Denise Fraga e Tuca Andrada, e direção-geral de Luiz Villaça.

O que chama a atenção nessa peça, que podemos classificar como Comédia Trágica ou Tragicomédia, é o frescor e a atualidade do seu texto, tendo em vista que princípios como: ética, moral, honestidade e transparência estão, de um modo geral, escassos na sociedade contemporânea e quase inexistentes na política brasileira, por exemplo, se contextualizarmos a obra à conjuntura nacional.

Os cidadãos de Güllen, uma pequena cidade decadente da Europa Central, esperam ávidos pela chegada de Claire Zahanassian, uma senhora milionária que prometeu salvá-los da falência. Em seu jantar de boas-vindas, Claire impõe uma condição: doará um bilhão à cidade, se alguém matar Alfred Krank, o homem por quem foi apaixonada na juventude e a abandonou grávida. Tendo a proposta rejeitada, Claire decide esperar, hospedando-se com seu séquito no hotel da praça principal. A partir dessa premissa, o suíço Friedrich Dürrenmatt cria uma sequência tragicômica de cenas que expõe ao máximo a fragilidade moral do homem, quando se trata de dinheiro.

Alguém matará Krank? Cairá Güllen na tentação de satisfazer o desejo de vingança da milionária? Ou fará justiça? O que é fazer justiça? Até que ponto a linha ética enverga diante do poder do capital? Todas essas reflexões justificam o Brasil em que estamos vivendo nos dias atuais.

O clássico de Dürrenmatt nos faz pensar em nossos atos e em nossas práticas, pois há momentos em que cobramos dos nossos governantes o fim da corrupção e, na verdade, no nosso dia a dia, estamos suscetíveis a praticá-la em maior ou menor proporção.

A montagem de A Visita da Velha Senhora tem um “Q” de Farsa, pois, embora o elenco não seja pequeno e a duração não seja curta, a peça carrega no andamento de sua ação dramática elementos farsescos que dão leveza ao espetáculo, sem que nos desviemos das críticas sociais apontadas.

A atriz Denise Fraga vive a personagem-título do espetáculo, a Velha Senhora, que no final da década de 90 do século passado, foi vivido pela grande atriz que nos deixou recentemente: Tônia Carrero.

Apesar de boa atriz, Denise Fraga tem uma voz frágil para o teatro, pouco potente e visceral para uma mulher que tem sede de vingança. A Velha Senhora tem a voz de Medeia, tragédia grega escrita por Eurípides, esse espetáculo, no entanto, perpassa pela tragédia, mas seu canal de comunicação é mais eloquente na comédia, gênero em que a atuação de Denise Fraga se destaca. Dessa forma, a voz da atriz, que nem sempre nos chega adequadamente aos ouvidos, não distorce a encenação apresentada.

O extenso elenco de 13 atores tem como protagonistas Denise Fraga, a Velha Senhora, e Tuca Andrada, seu amado do passado, de quem ela quer se vingar. Os protagonistas dividem o palco com excelentes atores, nem todos conhecidos nacionalmente, que incorporam os tipos de Güllen, alguns fazendo dobradinhas de personagens.

A Visita da Velha Senhora, além de ser um retrato de época, possui uma atualidade que tem atravessado gerações, e, para nós brasileiros, parece ter sido escrita ontem.

A comédia é a expressão do desespero

A Visita da Velha Senhora

Dürrenmatt costumava dizer que a comédia é a expressão do desespero. Talvez o músico e compositor Frejat tenha pensado no escritor suíço ao escrever os versos: “E que você descubra que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero”.

Ou seja, o riso se torna fuga ao pensarmos: o que não tem remédio, remediado está. E, ao lançar mão do teatro como espelho do mundo, nos faz reconhecer que o riso provocado é, aparentemente, um riso de distanciamento, mas que, na verdade, pode ser um sinal latente de aproximação e, por isso, rimos de nervoso, porque vemos no palco a nossa angústia e o nosso lugar de falar, mas não temos coragem ou não conseguimos dizer o que nos angustia.

Nesse sentido, resta o humor, a fantasia, a poesia e a arte de modo geral, para nos ajudar a elaborarmos o nosso pensamento e direcionarmos a nossa vida, transformar o que é preciso e, também, sermos transformados.

Enfim, o velho clássico que lançou Dürrenmatt para o mundo é mais atual que o jornal de hoje, e seu texto seria somente cômico, se não fosse trágico.

Ator e crítico, é Analista Técnico de Cultura no SESC Rio.

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