Música

Caravanas, de Chico Buarque

A primeira vez que vi Chico Buarque nos palcos foi em 2012. Simples e sem grandes efeitos de iluminação, o show de 2012 foi um abraço com trilha sonora maravilhosa encerrado com uma salva de palmas de um público satisfeito. Foi minha primeira experiência de ir a um show sozinha, e correu tudo bem, com Chico sentado, um vilão na mão e a voz que a gente já sabe que ele tem.

Seis anos depois, Caravanas é lançado e a turnê promete um janeiro inteiro de Chico Buarque no Vivo Rio. A expectativa apagada pelo valor do ingresso (meia de R$110,00) foi ressuscitada quando um amigo que mais é irmão decide me dar o ingresso de presente de Natal atrasado. E, deixa eu dizer, vale cada minuto.

Apesar do coro de “fora Temer” ao final do show inserir o viés político que é impossível desvencilhar o cantor (e Chico voltando ao palco com “Fora Temer é para eu voltar, né?” com a resposta gritada do público: “sim!”), o foco de pouco mais de uma hora e meia de música está na passagem de alguns sucessos dos anos 70/80 para Caravanas, Blues para Bia, Dueto e Jogo de Bola —músicas do álbum lançado em 25 de agosto do ano passado.

Chico Buarque - Caravanas
foto por Leo Aversa

Partido Alto, composta pelo próprio, foi logo a segunda música do show. Como não cantar junto “mas se alguém me desafia e bota a mãe no meio / dou pernada a três por quatro e nem me despenteio / que eu já tô se saco cheio” com aquele foco em “coloca a mãe no meio” em um tom indignado. Ou então, mais para o final, Sabiá no melódico “vou voltar / sei que ainda vou voltar” que chega a arrepiar.

Geni e o Zepelim, cantada tanto em 2012 quanto em 2018, é uma das mais impactantes partes de A Ópera do Malandro, de 1978. Por isso mesmo, ainda hoje é o bis perfeito para um show que leva o público inteiro a cantar, às vezes sentado às vezes em pé, todas as músicas escolhidas por Buarque.

Vale ressaltar aqui que, falando superficialmente, Geni e o Zepelim claramente é uma crítica ao papel que é imposto à mulher, cuja visão muda de acordo com os interesses da classe (ou gênero) dominante. Estamos falando de uma sociedade machista, certo? Na peça A Ópera do Malandro, entretanto, Geni é, na verdade, Genivaldo, um travesti.

Chico Buarque Caravanas
foto por Anderson Borge

Das músicas de Caravanas, escolho destacar Dueto, cuja letra acho particularmente simples, mas extremamente atual. Ainda que provavelmente seja um exagero da minha parte na interpretação da letra, “serás o meu amor, serás a minha paz” me passa uma ideia de amor que condiz exatamente com o que penso hoje. Aquele velho papo de amor vs (e junto da) paixão. Discutiremos a respeito disso em outra oportunidade.

E, claro, Blues pra Bia, que honestamente não é uma das minhas favoritas, porém não tem como deixar de citar por conta do seu conteúdo. “ Que no coração de Bia / meninos não têm lugar”.

Com iluminação impecável, presenteando-nos com alguns comentários sobre a composição de suas músicas e pessoas que marcaram sua história, Chico faz um show completo, rico e canta com um sorriso no rosto e, em homenagem ao malandro, coloca uma cartola na cabeça, dançando. Inesquecível.

São Paulo, a turnê chega para você em 1º de Março, no Tom Brasil. Os ingressos já estão à venda (com setores já esgotados!) no site do Ingresso.com.

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

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