Críticas,  Literatura

Crítica | As Portas da Percepção e Céu e Inferno, de Aldous Huxley

As Portas da Percepção é seguida de Céu e Inferno, além de apêndices fundamentais para a compreensão global do texto e do pensamento do autor. Importante destacar a data da primeira publicação do texto, pois trata-se de uma obra visionária, que aborda assuntos comuns a nós e que nos coloca em cheque a todo momento e em quase todas as discussões sobre o tema “consumo de drogas”; e é sobre isso, em forma de ensaio, que Huxley disserta em As portas da percepção.

Atentei para o título do livro pois, se o analisarmos atentamente e apreendermos sua ideia principal, a obra nada mais faz do que abrir portas para outras percepções sobre o uso de alucinógenos que, em primeira instância, “alteram o estado ordinário da mente”, para usar as palavras do autor.

No texto, Huxley relata a experiência que teve ao engolir quatro décimos de um grama de mescalina, um componente químico capaz de deixar a “qualidade da consciência mais profundo que qualquer outra substância no repertório dos farmacologistas” e, entretanto, “ser a menos tóxica de todas”.

A mescalina é o princípio ativo do peiote, uma raiz cultivada e utilizada nas tribos do México para se chegar ao divino; de acordo com Artaud, em D’un voyage au pays des Tarahumaras, os índios Tarahumaras usavam o peiote, em doses adequadas para, assim, estabelecer contato com a divindade deles; em suma, o peiote facilitava a relação deles com o Transcendente.

“Há coisas conhecidas e coisas desconhecidas, e no meio estão as portas da percepção.”

Vale destacar que esses dois autores foram os únicos dos que li que lançaram um olhar sensato sobre a utilização de substâncias “enteógenas”, que liberta o homem de seu estado ordinário e eleva-o a Transcendência.

Huxley procurou embasar cientificamente todas as suas experiências e também as alheias; nota-se um enorme conhecimento do mundo da biologia, da anatomia e das artes para fundamentar sua ideia e sua experiência a partir do uso da mescalina.

O autor inglês tem uma visão geral do mundo, ressaltando a ascensão do capitalismo, dos problemas sociais, defendendo a hipótese de que o homem moderno quer se libertar desse mundo limitado (daí citar exemplos do álcool e demais drogas); ele dá razão para quem procede de tal forma, pois a maneira como vivemos, para ele, nos limita ver as coisas estão à nossa frente de modo tal qual elas não são.

Fundamentando cientificamente a ação da mescalina e do ácido lisérgico (LSD) no organismo, Huxley argumenta que “o anseio de transcender a individualidade autoconsciente é um dos principais apetites da alma”.

Vale dizer que Huxley não aprova o uso deliberado e desordenado de princípios ativos capazes de alterar o estado ordinário da consciência; desde o início, ele fez questão de ressaltar a dose ingerida, além de defender que é fundamental para o usuário ou aspirante a usuário estar em bom estado de saúde e com a mentalidade correta. Dessa forma, princípios ativos como a mescalina e o LSD levaria o homem a outras percepções sobre o universo à sua volta, desde um vaso de plantas na janela até um carro estacionado na calçada.

Em Céu e Inferno, Huxley aponta para os efeitos negativos do uso da mescalina; compara esse uso a surtos de esquizofrenia, nos quais o doente se vê enclausurado e com medo da própria consciência. Foi o que o próprio autor relatou em determinado momento durante o período de uso da droga, momentos nos quais ele acreditou não ser capaz de lidar com uma consciência maior e mais ampla do que a que ele estava acostumado.

Esse pesadelo a que se chega a partir do consumo de alucinógenos não é gratuito; para o autor existem causas para que se chegue a esse estado infernal, que são “o ódio, a raiva e a malícia”. Nota-se que, além de atentar para a dosagem ingerida, o autor preocupa-se com estado físico e mental dos usuários; logo, o uso não deve ser deliberado. Céu e inferno consta de oito apêndices que complementam as ideias do texto; são outras experiências em que é possível alterar o estado da mente, por exemplo, o jejum e a luz estroboscópica.

O texto torna-se ainda mais interessante a partir da leitura do posfácio, de Sidarta Ribeiro. Nele conta-se que, momentos antes de sua morte, Aldous Huxley solicitou que fosse injetado em seu organismo 100 microgramas de LSD. A esposa do autor comentou que ele “assumiu um semblante muito belo e morreu”.

Não é à toa que Huxley se tornou um dos gurus da geração psicodélica da década de 60, lançando um novo olhar sobre o consumo das drogas; um olhar libertador, sobre elementos e objetos que sempre fizeram parte de nós, mas que as exigências do mundo moderno não nos permitiram perceber e fitar.

A leitura, tanto de As portas da percepção/Céu e inferno, quando do texto de Antonin Artaud sobre os Tarahumaras, podem permitir uma reviravolta nos debates sobre o consumo de drogas no país, sobre as consequências e possíveis benefícios. Importante dizer: muitos dos relatos citados no ensaio o leitor provavelmente não compreenderá, a menos que esteja sob efeito da mescalina e atente-se para os mesmos objetos (ou não) que Huxley. Leitura mais do que recomendada!


NOTA ★★★★

crítica por Thiago Marques, exclusivamente para Versificados

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