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Crítica | Eu só posso imaginar: A história por trás da música “I Can Only Imagine” da banda MercyMe

“Deixe que a dor se torne sua inspiração e aí você dirá algo em que as pessoas vão acreditar.”

Uma obra de arte não é apenas uma obra de arte. Independente de qual tipo de arte estamos nos referindo, a finalidade maior desta, mesmo que não intencional, é passar uma mensagem. E essa mensagem pode conter toda uma bagagem de vida por trás dela e até mesmo ser capaz de curar pessoas ao redor do mundo.

Na maioria das vezes foi preciso muito sofrimento para criar algo de valor. Afinal, as criações mais autênticas e belas são aquelas oriundas das experiências pessoais de seus criadores, em grande parte dolorosas.

E é isso que nos mostra o filme “Eu Só Posso Imaginar”, que conta a história que deu origem a letra da música I Can Only Imagine da banda MercyMe. Ou melhor, a história do próprio compositor e vocalista da banda, Bart Millard.

Bart (J. Michael Finley) teve uma infância cercada pela solidão e violência na qual sua imaginação aflorada e capacidade criativa eram suas melhores aliadas e consoladoras nos momentos de maior desespero. Desde pequeno tinha o dom de criar coisas novas transformando o que podia ser uma simples sucata em um capacete espacial, por exemplo.

Sua paixão pela música, principalmente pelo rock e pelo gospel, também é algo que sempre foi presente em sua vida. A arte era um meio de escapar e sobreviver em meio à realidade em que vivia.

Criado por um pai extremamente abusivo e uma mãe inconsequente e irresponsável (ou pelo menos é isso que aparenta no filme) apesar de carinhosa com o filho, o vocalista de MercyMe cresceu sem um local seguro no qual pudesse chamar de lar, fazendo com que criasse um próprio mundo a parte onde se protegesse de todo caos que convivia diariamente.

Isso o tornou um adulto fechado e receoso, que por vergonha de sua vida, não conseguia se entregar totalmente pra ninguém. O que prejudicou seu relacionamento com sua namorada e amiga de infância, Shannon (Madeline Carrol). Cansada de tentar compreender Bart e não obter progresso, ela termina com ele por exigência de reciprocidade.

Ela achava que ele não a amava da mesma forma e proporção que ela, porém como amar alguém se a própria pessoa não é capaz de se amar? E como sair da defensiva se ele aprendeu desde sempre a criar maneiras de se esconder das pessoas ao redor como estratégia de proteção?

Tudo que ele conhecia era a violência e o desamparo. Sua única tábua de salvação além da religião era a música. Então não tinha como cobrar dele algo que nunca recebera e, portanto, nunca conhecera.

O filme não explora como foi a criação do pai dele, mas muito provavelmente não deve ter sido muito diferente da que ele deu para o filho. Ele diz, antes de sua morte, que não acreditava que os sonhos de Bart se realizariam, porque os dele não se realizaram.

Quem sabe antes de se transformar nesse homem endurecido pela vida ele também não foi uma criança sonhadora assim como seu filho?

“Sonhos não pagam as contas. Só servem para nos afastar da realidade.” (Pai de Bart para o filho).

E apesar de todas as agressões cometidas pelo pai, foi ele que trouxe Bart de volta pra casa quando ele estava sofrendo maus tratos na casa do padrasto. Essa informação passa bem rápido no filme, mas me chamou atenção junto com a notícia de que a mãe foi embora para morar com outro ainda mais violento que o pai de Bart. Contudo, esse pedaço da vida de Bart Millard não é abordado no longa.

“Eu Só Posso Imaginar” é primordialmente sobre cura. Como a paixão pela arte e a descoberta da fé podem realmente nos transformar em alguém melhor. Ou talvez, no fundo, não existam casos de transformação, mas sim, de reencontro com nós mesmos, com quem sempre fomos, mas que por circunstâncias da vida acabamos perdendo no meio do caminho.

E um dos inúmeros papéis da arte não é justamente nos ajudar a aflorar aquilo que temos de mais profundo dentro de nós, seja bom ou ruim?

O pai de Bart, mesmo no final da vida, ainda teve tempo de reconhecer o talento do filho e reconhecer os próprios erros a fim de finalmente criar um elo com ele.

“Quando eu finalmente tive a oportunidade de ter o pai que sempre quis, ele está prestes a ser tirado de mim.” (Bart Millard)

É interessante também, como mostra o quanto acontecimentos do passado, principalmente da infância, podem influenciar nossas vidas pra sempre e voltar o tempo todo em nossas mentes, em situações variadas e até mesmo fora do contexto no qual a vivenciamos pela primeira vez. Por isso que sempre que Bart levava um não das gravadoras a afirmação de seu pai de que ele não era bom o suficiente voltava à tona.

Esse pode não ser o filme mais emocionante do mundo, pois a história de Bart Millard poderia ser mais bem explorada. Fiquei com a impressão de que o roteiro foi enxugado em excesso acelerando demais a narrativa e com isso, cortando coisas que poderiam ser importantes para contar a história do músico. Mas, de qualquer forma, é um ótimo filme pra quem está precisando de um pouco de esperança na vida.

Entretanto, para quem, assim como eu, não conhecia a banda nem a música foi importante para dar uma ideia geral sobre eles e criar interesse tanto no trabalho quanto na história de vida da mente por trás de I Can Only Imagine. Todo mundo que assistir o filme vai sair curioso para pesquisar mais sobre Bart Millard e a MercyMe.

Confira abaixo a letra de I Can Only Imagine traduzida:

Aproveito pra deixar aqui outro texto meu sobre o papel da arte como cura e salvação: http://www.versificados.com.br/quem-iriamos-recorrer-se-nao-existisse-arte/

Estudante de Letras metida a astróloga graças (ou não) ao seu escorpião com ascendente em peixes e lua em aquário. Viciada em séries a ponto de se recusar a aceitar a "morte" de Lost até hoje. Precisa de injeções diárias de realidade pra não ser abduzida pela Terra do Nunca.

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