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Crítica | Um Pequeno Favor: Mais uma obra de Gillian Flynn mal adaptada para às telas?

“As pessoas fazem coisas terríveis por motivos próprios.”

Mais uma vez um romance de Gillian Flynn, autora de Garota Exemplar, é adaptado para o cinema. Dessa vez, o escolhido é Um Pequeno Favor, outro longa que também deixa a desejar.

Na história, conhecemos duas mulheres tão carismáticas e interessantes a seus modos quanto opostas uma da outra. Stephanie (Anna Kendrick) é uma dona de casa viúva que dedica sua vida a cuidar de seu filho e, vlogueira nas horas vagas. Extremamente prestativa e habilosa na arte de ser mãe, transparece ser alguém de índole confiável e até com uma certa ingenuidade ao lidar com pessoas. Porém, também tem segredos dos quais não se orgulha nem um pouco.

Do outro lado, temos Emily (Blake Lively). Ao contrário da outra, ela é uma mulher de negócios, totalmente desprendida de laços de apego (apesar de amar seu filho, à sua maneira) que tem a firmeza necessária para se posicionar quando é preciso, mesmo trabalhando num meio onde a maioria é formada por homens.

Não tem pudores nem se preocupa com formalidades maternais como não falar palavrão na frente do filho ou participar das atividades escolares dele, como Stephanie. Sabe que não é a mãe perfeita e nem tenta ser. É o que é e faz o que pode sem se importar se vai agradar ou não. Egoísta? Sem dúvida. Contudo, uma egoísta consciente, eu diria.

Cada uma à sua maneira, de acordo com seus panos de fundo, se esforça para fazer o melhor que podem por seus filhos. Mesmo que melhor signifique passar por cima de alguns valores morais e éticos. Independente dos erros que cometem é inegável o quanto os amam. Mesmo de forma desligada e sem muito protecionismo e paciência, como no caso de Emily, ela se importava muito com ele.

Aliás, isso poderia ter ficado mais claro no filme. Os roteiristas podiam ter realçado melhor isso, até mesmo como forma de “desvilãnizar” um pouco a personagem da Blake Lively. Porque se não fosse pelo amor ao filho, que na verdade é a única pessoa que ela realmente ama, Emilly seria uma personagem totalmente maniqueísta.

Ela é dissimulada, dominadora, intransigente, estrategista, calculista e, possui uma enorme frieza ao agir. Misteriosa e enigmática a ponto de não permitir ser fotografada por ninguém. Esconde muitos segredos, sendo que seu próprio marido que convive com ela diariamente, não a conhece por completo. Afinal, seus truques não são para amadores e sim dignos de mestre. Ou melhor, de uma mestra.

Um pequeno favor

Não li o livro que deu origem ao filme, mas não tenho dúvidas de que deve ser milhões de vezes melhor que sua adaptação. Um Pequeno Favor não é de todo ruim, porém seu trailer cria muitas expectativas no público e não cumpre exatamente com o prometido ao entregar um longa com um tom muito mais humorístico do que dramático e de suspense como estava sendo vendido.

Não é que ter alívios cômicos seja algo ruim. Até porque, o humor irônico e debochado das personagens principais são um incremento a mais para o enredo, tornando-o muito mais interessante de assistir.

Só que era esperado, acredito que pela maioria, um pouco mais de profundidade e complexidade no desenvolvimento da trama e isso talvez se deve a uma dificuldade que os roteiristas tem para adaptar as obras de Gillian Flynn para o cinema, por conta da quantidade de detalhes significativos e pela própria estrutura narrativa de seus livros que geralmente apresenta os capítulos divididos pelos pontos de vista dos personagens principais da história. Mostrando, assim, que os mesmos acontecimentos podem ser interpretados de formas diferentes dependendo de como cada um os enxerga.

E como isso não é levado para suas adaptações, como foi feito, por exemplo, com Extraordinário que manteve a estrutura narrativa do livro, fica a impressão de que está faltando algo para o filme ser considerado bom de fato. Aconteceu isso com Garota Exemplar também. Eu assisti primeiro o filme e detestei.

A sinopse prometia muito, mas o roteiro mais uma vez não cumpriu com seu objetivo. Depois fui ler o livro e adorei. Percebi que não era um problema para desenvolver a ideia, mas sim, uma dificuldade de adaptar o texto literário para a linguagem audiovisual mesmo. Acredito que tenha sido o mesmo caso de Um Pequeno Favor.

Tirando isso, é importante destacar como a relação entre Emily e Stephanie mexe com a personalidade de ambas. As duas aprendem muito com o choque que a oposição entre elas causa e absorvem uma lição, tanto positiva quanto negativa, desse contraste todo. No fim do longa fica visível que ambas se tornam professoras e alunas uma da outra e diria até, que de certa forma, elas adquirem um pouco os defeitos e qualidades que a outra possui.

Um Pequeno Favor lembra sim em alguns aspectos Garota Exemplar e não só em decorrência de seus problemas de adaptação, mas também pela própria Emily, que tem muitas semelhanças com a protagonista da outra obra de Gillian Flynn, A Amy. Tanto fisicamente quanto em relação a personalidade e caráter duvidoso das duas personagens femininas da autora. Além da própria atmosfera dos dois enredos serem carregadas de mistério, desconfianças e segredos escondidos nas entrelinhas.

Por último e não menos importante, é preciso aplaudir a atuação das duas atrizes principais. Anna Kendrick e Blake Lively dão o tom exato para suas personagens fazendo o público sair do cinema com a certeza de que não tinha atrizes melhor para interpretar Stephanie e Emily, respectivamente.

O carisma das duas é o que mais chama a atenção durante o filme inteiro, até mesmo se sobrepondo à narrativa em si. E elas tiveram um ótimo entrosamento em cena não deixando a desejar em nenhum momento, ao contrário do roteiro.

Se o filme ainda consegue ser bom apesar de não cumprir com as expectativas, é graças à essas duas mulheres, sem dúvida.

Estudante de Letras metida a astróloga graças (ou não) ao seu escorpião com ascendente em peixes e lua em aquário. Viciada em séries a ponto de se recusar a aceitar a "morte" de Lost até hoje. Precisa de injeções diárias de realidade pra não ser abduzida pela Terra do Nunca.

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