Críticas,  Literatura

Resenha | David Bowie – Uma Vida em Canções, de Rob Sheffield

Há alguns anos, caiu na minha mão o livro As Cartas de John Lennon, já resenhado aqui, que focava tanto na vida do cantor quanto nas letras dos Beatles e das músicas solo. O livro, que parecia meramente interessante, foi lido em poucos dias. E foi exatamente isso que aconteceu comigo em David Bowie — Uma Vida Em Canções.

“Nós recorremos à música para ouvir nossas próprias mudanças.”

Apesar de tomar a liberdade de chamar este livro de biografia, entenda que o objetivo de Rob Sheffield não é contar todos os passos de Bowie. Na verdade, a perspectiva que temos da vida do cantor é bastante limitada — sabemos que seu irmão foi internado em um hospício, que David teve uma grandessíssima companheira ao longo da vida e que uma fase foi particularmente ruim, tanto na vida pessoal quanto na música; mas paramos aí. E, nesse contexto, não precisamos saber mais.

Uma vida em canções é muito mais uma declaração de amor ao que Bowie criou do que qualquer outra coisa. Não só em relação às letras das músicas, mas à sua imagem e como jovens roqueiros das décadas de 70 se inspiraram nela para… bem, assumir quem eram. Para Rob, Bowie foi um marco por conseguir se conectar com vários públicos.

“Ele fazia você se sentir mais corajoso e mais livre, e é por isso que o mundo parecia diferente depois que você ouvia o Bowie.”

Isso porque sua música não seguia uma linearidade comum — mudava de acordo com o que ele achava pertinente. O rock de Bowie era uma mistura de tons e ritmos, com elementos do pop, do blues e do que mais ele quisesse. E ficava bom. Movimentava toda uma geração que, finalmente, sentia-se compreendida.

Por isso mesmo sua partida foi tão dolorosa. Mais ainda, o cantor presenteou o mundo com um álbum de despedida. Literalmente, já que todos que colaboraram para que ele fosse lançado em 8 de janeiro ficaram em silêncio por todo o ano anterior.

Quando Blackstar chegou, foi uma surpresa para todo mundo porque permitiram que fosse, porque o cantor inspirava lealdade a esse ponto. E, mais, Bowie faleceu em 10 de janeiro, apenas dois dias depois do lançamento.

“Será que suas últimas palavras tornaram seu sofrimento mais leve ou mais intenso?”

Uma vida em canções não tem como ser completa se não citar outras bandas e cantores — como Rolling Stones, Beatles e Depeche Mode. Não tem como ser completa sem mostrar o lado do Bowie mais novo, e do mais velho — “é velho o suficiente para ter o medo de nunca se sentir ele mesmo.

E também é velho o suficiente para ter medo de acabar se tornando ele mesmo e então se tornar um cara chato”. O que conquista o mundo, e o que vê o sucesso escapar por entre os dedos antes de, todos agradecemos, renascer mais firme e forte em 2013.

Rob, na sua escrita apaixonada que nos deixa no mesmo nível que ele de emoção, passa por Space Oddity (com detalhes sobre Major Tom — Coming Home, de Peter Schilling); Ashes to Ashes, Heroes (e, ele não cita, mas nós não conseguimos ignorar o eco de Moulin Rouge) e What in the world.

E, se a morte de Bowie foi dolorida para Rob, é em especial agora para a gente também. Até para os que até então não eram exatamente fãs do cantor. Há quase dois anos de sua morte, nos cabe encerrar com um mero adeus.

“Tell my wife I love her very much, she knows”


NOTA — ★★★★★

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

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