Revista

Duas chuvas

Ela aguardava sob um guarda-chuva que mantinha ereto pela mão esquerda, a outra segurava firme e leve um pulso macio de cinco anos de idade. A criança estava abrigada dentro duma capa de chuva transparente que deixava ver o uniforme escolar cinza e verde. Mexia constantemente no laço cor de rosa que amarrava o curto rabo de cavalo.

– Tira a mão, vai desmanchar. – repreendeu a mãe, ao que a menina logo obedeceu.

As gotas pesadas faziam trepidar o guarda-chuva e vinham de um céu homogeneamente branco, o ruído da chuva bloqueada por aquele escudo impermeável se misturava ao ronco esforçado dos motores frios de ônibus e dos irritantes apitos de guardas que eram canalizados de volta para os ouvidos dos transeuntes quando batiam nas paredes dos becos e nas faces duras dos prédios. Vez ou outra uma pessoa apressada que fora surpreendida pela chuva esbarrava na mãe, que se permitira ser atingida por algumas gotas para proteger a criança desses descuidados. Uns se desculpavam, mas outros nem pareciam notar que tinham se chocado com alguém. A espera era longa todos os dias, mas quando chovia sobre o Rio, o trânsito lerdeava ainda mais. E isso se via pelo grande volume de carros e motos que passavam no outro lado do paredão de ônibus que encostavam para embarcar e desembarcar. Ela imaginava se aquele que esperava teria passado pelo outro lado ignorando os passageiros que aguardavam. E nessa espera, a água que o céu branco mandava respingava na calçada de pedras portuguesas e molhava seus tênis e calças até os joelhos.

Ela observou que um homem de terno a estivera olhando sem pudor e quando percebeu que ela notara, desviou os olhos para o bueiro ao lado. Ela odiava aquela calça colada na pele que costumara usar numa academia onde já não entrava havia muito tempo, e odiava o fato de nenhuma camiseta, por mais larga que fosse, ser capaz de cobrir seus quadris largos. E Odiava o fato de aqueles quadris chamarem tanta atenção que os homens nem notavam a larga e escura cicatriz na bochecha direita. Essa cicatriz ela escondia quando os cabelos crespos eram alisados eventualmente, mas naquele dia estavam rebeldes e amarrados num rabo de cavalo volumoso. Odiava ainda mais ser obrigada a usar aquela calça por ser a única limpa, só teria dinheiro para comprar sabão na semana seguinte. E odiava não poder arrumar os cabelos como gostava por razões semelhantes. Nem tanto o cabelo, mais as razões.

Contudo, estava satisfeita. Sua filha estava alimentada, tinha todo o material necessário para as aulas da escola. Tinha onde morar mesmo sendo de aluguel, nunca precisara mendigar um pulo na roleta do ônibus. Só precisava abrir mão do seu próprio conforto para suprir as necessidades da criança. E quanto a amor e atenção, isto não custava dinheiro, e fazia bem para ela própria.

Dizem que cicatrizes contam histórias, que são marcas que não nos deixam esquecer nossas lutas e nossas vitórias. Bem, a história que aquela cicatriz contava não era tão vitoriosa. Era uma jazida de lembranças amargas que vinham em momentos indesejados, geralmente quando a fragilidade da mulher começava a subjugar sua valentia, geralmente quando a súbita percepção das dificuldades lhe traziam lágrimas aos olhos. Era nesses momentos, necessários para nos lembrar que ainda somos humanos e que ainda precisamos de Deus, que as memórias se lhe apresentavam como nuvens negras que escondem o sol.

Nesses momentos ela se apegava à filha. Então a mulher de que a menina precisava passava a necessitar da menina. O porto passava a necessitar do navio. A menina tinha a pele morena como a sua, mas carregava os olhos claros do pai. A princípio, ela achara injusto ter que lembrar daquele homem cada vez que via a filha, mas começou a perceber a distinção: os primeiros olhos claros a perscrutavam com ciúmes doentios, com altivez, diziam “você me pertence”, a fitavam com crueldade e obsessão. Mas os olhos da criança, apesar de semelhantes aos do pai, a olhavam com ternura, com admiração, diziam “eu amo você”.

-Mamãe, o ônibus não vem? – disse a criança puxando-lhe a mão direita.

Ela despertou e viu a menina, viu de novo os olhos claros que atinham como abrigo e farol. Como tudo o que tinham.

– Vem sim, amor. Espera.

– To com frio.

– Vem cá. – ela falou se abaixando. A menina se aproximou e a mãe a abraçou, buscando aquecê-la. A capa de chuva da menina a molhou, mas ela não se importou.

De novo.

A cicatriz começou a falar em sua mente.

Ela fechou os olhos e viu o rosto enfurecido, ecoaram em seus ouvidos outra vez as palavras mais cortantes que a faca que riscou seu rosto. As palavras que a denegriam, chamando-a de vagabunda e coisas piores, ofendendo a família que um dia acolhera o autor daquelas frases. Viu outra vez o reluzir da faca, as risadas sádicas que a atormentavam, as mãos pesadas que ora acariciavam ora a feriam, e viu outra vez o terrível azul daqueles olhos ensandecidos, loucos, cheios de rancor por coisas que nunca lhe tinham sido feitas.

– Mamãe… – mais uma vez a voz dócil e carinhosa a despertou. – Você tá chorando?

À altura do seu rosto a menina a fitava com os olhos azuis de cuidado e amor. A mão pequena espalhou as lágrimas pelo seu rosto, como a mãe fazia com a filha. Ela mal notara que chovia dela como do céu branco. Viu ali o quanto precisava da menina, mais ainda do que já sabia, ainda mais do que a menina precisava dela. Imaginou o que seria dela sem a criança e não quis responder a essa questão.

– Vamos, filha, o ônibus chegou.

Vê a vida por um caleidoscópio de artes, podendo ser a literatura, a música, a fotografia e algo mais. Desde os nove anos de idade tentando abraçar o mundo.

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