Filmes

Crítica | Jim & Andy: The Great Beyond

O Mundo de Andy, lançado no Brasil em maio de 2000, traz Jim Carrey no papel de Andy Kaufman, um comediante norte-americano cuja primeira aparição relevante para o grande público se deu na primeira temporada de Saturday Night Live, em 1975. Kaufman conquistou a plateia com convites para lutas e atuações especialmente realistas, e morreu aos 35 anos de câncer no pulmão.

Quase vinte anos após a estreia do filme, Jim Carrey aceita falar sobre os bastidores de O Mundo de Andy para um documentário com direção de Chris Smith, produção da VICE Films e distribuição da Netflix.

Carrey faz isso por meio de uma entrevista impecável que, no longa, divide espaço com vídeos inéditos do que aconteceu por trás das câmeras de cinema, mostrando uma realidade pouco idealizada sobre processo de criação, objetivos e medos.

Falar sobre esses temas não poderia ser fácil em nenhum contexto e, em se tratando de Jim Carrey, inclui citar sucessos como O Máskara, Debi & Lóide, Ace Ventura e O Show de Truman — o primeiro e o último especialmente relevantes dentro de uma conversa sobre imagens projetadas e o quanto elas se misturam ao que nós realmente somos.

Conversa essa que é a essência do documentário. Mais do que mostrar o inferno que deve ter sido conviver com o ator ao longo das filmagens, Jim & Andy mostra com clareza como Carrey se envolveu por inteiro com o personagem, permitindo que a personalidade de Andy assumisse seu corpo e, de certa forma, desse liberdade para Jim não ser ele mesmo.

Em determinado momento, o ator fala sobre como se sentiu feliz durante as filmagens, e o quanto dar esse momento por encerrado tirou seu chão, fazendo-o voltar para si mesmo, com sua vida, seus problemas e sua infelicidade que nenhum dinheiro podia reverter. Como lidar com esse “eu” depois de meses na pele de outra pessoa? Como saber o que o define após meses tomando decisão pautado na vida de quem se está interpretando?

“Você vai ao trabalho, coloca um terno, age de certa maneira, diz certas coisas e mente muitas vezes, e faz o que precisa fazer para parecer um vencedor. E, em dado momento da sua vida, tem que pensar: ‘Não importa o que parece. […] Vou enfrentar o abismo de não saber se será um problema para as pessoas ou não.’”

A imagem de excêntrico e exagerado que me foi passada ao longo da primeira parte do documentário foi se desconstruindo a medida que me era apresentado um homem, cuja profissão é envolta de idealizações e cobranças, cujos objetivos eram ambiciosos a ponto o fazer procurar por uma perfeição que naturalmente não existe. Uma cobrança que me fez automaticamente pensar um pouco no que pode também ter acontecido Heath Ledger ao interpretar o Coringa. Não é suave ou fácil, é desgastante.

No final, não creio que este seja tanto um documentário sobre loucuras que se fazem nos bastidores com uma ótima justificativa (“entrei demais na minha personagem”), ainda que mostre o quanto isso atrapalha um trabalho que poderia ser feito de uma forma provavelmente muito mais leve. Na minha opinião, foi mais um embate entre sonhos e expectativas e a realidade — e o que fazer quando ela não é suficiente.

Escapismos podem vir em várias formas — dormir ou beber muito, por exemplo — , mas também na habilidade e no dom de atuar. O poder ser e viver outra vida, mesmo que por um tempo curto e limitado. O problema do escapismo é que a realidade sempre volta, e continua lá para ser encarada.

Nesse sentido, Jim & Andy me pareceu ser muito sobre aceitação, e nos leva a questionar o que realmente importa, o que nos faz inteiros e o que nos faz verdadeiramente feliz.

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