Séries

Como a terceira temporada de Lovesick trabalha uma concepção de amor mais madura

A primeira temporada de Lovesick foi ao ar em outubro de 2014, na Netflix. A premissa parecia boba e pouco promissora: Dylan se descobre com uma DST (clamídia) e decide que o melhor que pode fazer é contatar toda e qualquer garota com quem tenha ido para a cama para avisar que, talvez, elas tenham também.

Apesar de ser um viés interessante, vou voluntariamente me abster de comentários a respeito de camisinha (usem camisinha!) e da questão da responsabilidade¹ para focar na parte que aqui me proponho a falar.

Esqueça aquela ideia de amor romântico a lá Cinquenta Tons de Cinza – o tipo de amor avassalador com o qual crescemos ouvindo que era o certo e ideal. O tipo de amor que gera dependência emocional e frases como “eu não sei viver sem você”. Eu já falei isso, você já falou isso, mas eventualmente a frase se mostrou vazia, não?

É possível que um dia tenha caído a ficha e você tenha pensado que sabe sim viver sem a outra pessoa. E que, na verdade, essa vida sem ela pode até ser bem feliz e satisfatória. Você entende que o centro do seu universo é você mesmo, e não a pessoa com quem você está e, talvez, tenha percebido que mais importante que não poder ir embora é não querer ir embora.

Lovesick

Essa concepção de amor incondicional não tem espaço em Lovesick. A primeira temporada anda de mãos dadas com o cliché, mas estabelece desde já o simples fato de que a vida segue independentemente dos seus sentimentos, das suas dores e das suas felicidades.

Ela não dá um pause e espera você se organizar antes de dar o próximo passo. Ela não anula todas as pessoas que vieram antes do “grande amor da sua vida” (as aspas não são irônicas, juro) ao tirar a importância que elas tiveram em determinado momento da vida das personagens.

Ao focar completamente no presente — e nas dúvidas, e nas inseguranças, e na falta ou não de iniciativas —, a série fala sobre um amor mais calmo. Não porque falte fogo ou sentimento, mas porque ninguém ali depende dele para viver.

Lovesick é formada por três pontos de vista fundamentais: Dylan (Johnny Flynn), Evie (Antonia Thomas) e Luke (Daniel Ings), ainda que inclua outras personagens relevantes, como Abigail (Hannah Britland) e Angus (Joshua McGuire).

spoiler alert

Dylan é quem começa a história, mas sua personagem é a mais fraca diante das demais. Ele é o perfeito meio-termo: tem dificuldade para assumir os próprios sentimentos, segue a vida de acordo com o que ela entrega a ele e ponto. Se ele não está com a mulher que claramente ama, é porque está ocupado demais inventando desculpas para isso.

Evie é engraçada, sensata e está sempre com o pé atrás. Ela sabe e reconhece os sentimentos por Dylan, mas não vê interesse por parte dele, então não toma a iniciativa e aceita as coisas como elas parecem ser.

Luke, na terceira temporada, finalmente assume que tem problemas reais em aceitar compromissos e acaba em um psicólogo com o objetivo de resolver o problema. Quando encontra a mulher ideal, é claro que ela é tão problemática quanto ele e os dois precisam trabalhar o medo de se decepcionarem antes de poderem dizer para si mesmos que querem um relacionamento.

O ápice dessa ideia de amor maduro sobre a qual estamos falando chega no último episódio. Os três estão em uma reunião da faculdade, onde Evie (que finalmente está namorando Dylan) encontra o homem que foi o seu amor-paixão-não posso me desgrudar de você.

Ele está casado, tem uma filha e ambos se olham com certo carinho em respeito ao que viveram. Não há intenção de que algo mais aconteça, ambos sabem que o relacionamento que tiveram está no passado e ponto — o que não livra Dylan de uma boa cota de ciúmes que, honestamente, eu entendo.

À noite, Evie não consegue dormir. Levanta e se pega chorando. Quando Dylan aparece, a tensão está formada: ela claramente está daquele jeito por causa de um homem que esteve na sua vida por um bom tempo, foi importante e com o qual teve um relacionamento que não se encerrou porque uma das partes deixou de gostar da outra.

Dylan pergunta o que está acontecendo. Evie explica que ela não ama mais o homem que encontrou, que ama Dylan e quer de verdade estar com ele. Era a oportunidade perfeita para que a insegurança de Dylan se mostrasse e o casal brigasse, o que, bem, eu também não julgaria.

Entretanto, ele a abraça, deixa que ela chore em seu ombro e depois a leva para cama (para dormirem, relevante falar). Ambos entendem que o que está no passado está no passado e, por mais que Dylan tenha, sim, se sentido inseguro e a situação tenha doído, ele não permite que isso domine o relacionamento bom que está vivendo.

Essa aceitação foi marcante, porque em vez de mostrar um relacionamento frágil, fez com que acreditássemos mais ainda no relacionamento que estava apenas começando a ser construído. Foi uma espécie de ponto final no qual ele esteve lá para ela, como amigo, como companheiro; houve respeito, amor e compreensão.

spoiler alert

Sabemos que a construção do amor não se pauta, entretanto, somente no par romântico Dylan/Evie (ou Dylan/Abigail ou Angus/quem quer que seja, que também valem um texto, mas não vamos ter espaço para falar sobre agora). Na terceira temporada, Luke é tão relevante quanto as demais personagens.

Isso porque o papel de cara galã engraçadinho e sem jeito para as palavras e ações, com aquele que de escroto, dá espaço para uma baita sessão de terapia com um psicólogo tão louco quanto, mas absurdamente observador.

É principalmente com Luke que Lovesick explora a insegurança e o medo de viver um relacionamento. Considerando que esse tipo de relação exige muita confiança e aceitar a própria vulnerabilidade, Luke se vê entre o amor e o medo de dar o próximo passo.

Colocar-se vulnerável é extremamente difícil porque abre as portas da possibilidade do sofrimento que ele quer a todo custo evitar. Como confiar? Como entender que não temos como estar seguros quando tem outra pessoa envolvida? E como, aceitando isso, conseguir se entregar?

Amor, afinal de contas, não vem com garantias. Um “te amo para sempre” tem um complemento intrínseco bastante conhecido: enquanto dure. E a questão é: como conviver com o fato de que o “para sempre” com quem você ama pode ser tanto pelo resto da sua vida quanto até o final do ano?

Lovesick é uma série atual, bem desenvolvida, com boas personagens e uma comédia gostosinha de assistir. Mas, principalmente, ela está aí para falar de um amor realista e pé no chão, completamente longe do nosso conceito criado de perfeição. E faz isso tão bem que você assiste uma temporada em um só dia.


¹em 120 Batimentos por Minuto, uma das personagens fala sobre a responsabilidade de ter pego AIDs. Ele não perde muito tempo apontando dedos e colocando a culpa no outro, ele divide a responsabilidade porque entende o corpo dele como dele, e o que ter escolhido fazer sexo sem camisinha significou para a sua rotina.

Carioca apaixonada por marketing na casa dos 20 e tantos com uma grande incapacidade de ficar parada e uma vontade louca de conhecer o mundo.

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