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Crítica | Lucky é um retrato dos pesos e alegrias de uma vida

No alto dos seus muitos anos, Lucky (Harry Dean Stanton) segue uma rotina. Ele acorda, lava o que é importante, faz alguns exercícios de yoga, sai para sua caminhada. Se ele em algum momento do dia almoça, lancha ou janta, não sabemos — mas café e álcool são parte de sua rotina diária, assim como os reality shows.

E tudo segue bem até o dia que, sem explicação, ele cai. Uma ida ao médico deixa claro que sua saúde está melhor do que se espera para a sua idade, mas não há como fugir de situações como essa. Para Lucky, a única solução é se acostumar — afinal, a perspectiva é a morte. Uma perspectiva que faz parte do cotidiano de todos nós, independentemente da idade, do sexo, da cor. Esse é nosso fim.

Aceitar isso, entretanto, não é exatamente fácil. Ao relembrar o passado, forma-se uma narrativa nostálgica que contamina o espectador por todo o filme. Nossa cultura vê a morte como algo negativo; ela é apenas o fim, e quem não tem medo de encarar o fim? Deixar tudo que se conhece para trás rumo ao desconhecido? As memórias, as pessoas, a rotina, os sentimentos.

Mas… e se pudéssemos sorrir frente a essa realidade? E se pudéssemos ser um pouco mais otimistas a respeito do fim? É uma linha que permeia todo o roteiro, em cima da qual os diálogos são construídos e a interpretação é pautada.

É exatamente nesse ponto que a fotografia do filme se destaca e, neste filme, não anda sozinha. Ele não tem visuais esplêndidos, trata-se de apenas uma cidade do interior, com cenários que não mudam tanto assim; o foco está, portanto, nos rostos e gestos das personagens. E não tem como não citar Harry Dean Stanton, brilhante neste último papel antes de sua morte, com expressões que mostram o medo do que lhe aguarda, mas a calma de uma vida inteira vivida.

Lucky não fala de amor, exatamente. Algumas personagens trazem esse aspecto, de como as pessoas entram nas nossas vidas e podem nos fazer felizes ao nos aceitar exatamente como somos, porém o foco não é esse. É pura e simplesmente aceitar a morte, e aprender a sorrir para ela.

Como falar de morte sem falar de vida? Sem mostrar que não estamos sozinhos e que a companhia pode vir de pessoas com quem não temos muito contato, mas com as quais nos importamos em algum nível? E, talvez principalmente, como falar desses assuntos sem cair nos velhos clichês? O humor nas entrelinhas de Lucky é inteligente, mostrando-se nos momentos ideais.

Destaco também a aparição pontual de David Lynch como Howard, fazendo-nos pensar sobre caminhos e despedidas de uma forma um pouco menos pesada; e Beth Grat como Elaine, uma mulher que não aceita desaforos. Por fim, vale destacar que a direção de John Carroll Lynch (ator em Fome de Poder) coube bem na narrativa, sendo muito bem-feita.

Lucky
“Você precisa aprender a morrer antes de morrer.”

Resta-nos uma despedida final ao ator que fez história com Coração Selvagem, O Poderoso Chefão e, como não lembrar, na terceira temporada de Twin Peaks


NOTA — ★★★★

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