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Crítica | O Rei do Show é um hino de esperança à todos os marginalizados e sonhadores

Inspirado na vida de P. T. Barnum, o homem que deu origem ao show business, O Rei do Show é um filme para aqueles que estão precisando de inspiração e principalmente, recuperar a capacidade de sonhar para se reencontrar. Estrelado por Hugh Jackman e Zac Efron, se você quer assistir algo que realmente te faça sentir, esse musical foi feito pra você.

Hugh interpreta o proprio Barnum, um homem que apesar de todas as adversidades nunca desistiu de suas ambições. Filho do alfaiate, cresceu vendo seu pai e ele mesmo sendo humilhados pelos nobres da cidade. Ao se apaixonar pela filha do patrão e lidar com a reação do pai dela, teve ainda mais certeza de qual era o papel designado para si na sociedade e do quanto necessitaria lutar para conquistar o respeito das pessoas.

Por causa de sua origem humilde, tinha consciência de que teria que provar a sua capacidade para os outros e até pra si mesmo o tempo todo, durante sua vida inteira, mais do que qualquer outra pessoa. E foi exatamente isso que o motivou ainda mais a realizar seu sonho de alcançar o estrelato.

Na sua busca pela ascensão social, junta pessoas que são consideradas aberrações por não se encaixarem no padrão exigido socialmente e as coloca em seu show de forma que as façam se sentir acolhidas e respeitadas como iguais. Enquanto o mundo as rejeita e as quer marginalizadas, Barnum trata suas diferenças justamente como algo que as torna especiais e merecedoras de serem amadas como qualquer um.

Claro que também tem toda a questão financeira envolvida por trás, pois estamos falando de um homem muito ambicioso que visa o lucro acima de tudo, porém seria muito raso limitá-lo apenas a um materialista obcecado por poder, pois ele é muito mais complexo do que isso.

O interessante de Barnum é exatamente essa complexidade que o transforma não em alguém perfeito, muito longe disso, mas em alguém que independente dos defeitos não perde sua humanidade. Por mais que seu objetivo seja chegar ao topo e ganhar dinheiro, ele fez o que ninguém fazia; dar espaço para os excluídos brilharem.

Como até o inflexível crítico de teatro consegue reconhecer; ao unir indivíduos diferentes no mesmo palco e os tratar como estrelas, o show de Barnum é claramente uma celebração à humanidade. Ele tirou essas pessoas de uma vida triste e solitária e as deu uma família de verdade. Uma na qual ao invés de serem motivo de vergonha, são motivo de admiração. Se isso não é uma prova de compaixão, tolerância e principalmente, empatia, então o que é?

E não é só em relação aos marginalizados sociais que ele proporcionou uma vida nova. Os personagens do Zac Efron e da Rebecca Ferguson também foram ajudados por Barnum. O primeiro, apesar de fazer parte da alta sociedade, estava se sentindo preso e infeliz — como mostra a letra de The Other Side — e a segunda, se encontrou no show de Barnum, pois mesmo que seja uma cantora de sucesso, é fruto de uma relação extraconjugal e portanto, também conhece a dor de quando até a própria família sente vergonha de quem você é e quer te esconder.

Em alguns momentos ele pode ter se perdido; como sua própDiante disso, mesmo que por motivos escusos, graças à Barnum essas pessoas puderam se libertar de suas prisões pra serem livres e amadas como realmente são. Sem precisar mais representar o papel que a sociedade as obrigava a cumprir.

No fim das contas, o rei do show realizou seu sonho através da realização dos sonhos de outras pessoas e, dando luz aos talentos daqueles que são tão menosprezados quanto ele. Se pudesse resumir o filme em uma única frase, eu diria que se trata de um homem desprezado que criou um show no qual outros desprezados merecem os holofotes como qualquer outro ser humano, sem distinções.

ria mulher diz numa das melhores cenas do filme, que ele não precisa que todos gostem dele. Apenas algumas poucas e boas pessoas. Contudo, fica difícil julgá-lo tendo em vista seu passado de humilhação.

É compreensível que ele não queira que suas filhas tenham o mesmo destino que ele. Sua esposa por mais bem intencionada que seja, não consegue compreender o que ele sente, pois nunca precisou lutar diariamente pra conseguir ser respeitada, como ele. Cada um sabe o que sente e onde dói a sua dor.

É interessante também a crítica que o filme faz aos críticos, através do personagem crítico de teatro, que está sempre sisudo e prédisposto a diminuir o trabalho de Barnum ou de qualquer arte com apelo popular simplesmente por ter esse apelo. Parece que para a crítica de qualquer objeto artístico, se algo conquista grande parcela do povão já é motivo suficiente pra ser ridicularizado. E quanto menos algo é aprovado pelo público, mais valor tem.

Só que nesse desespero em ser severo e o mais analítico possível com o trabalho alheio acaba se perdendo a emoção e o propósito maior em ter se tornado um crítico. Afinal, por que alguém vira crítico se não por amor aquilo que analisa? E se existe amor por trás de tudo, cadê a capacidade de se empolgar, emocionar, com o objeto de análise? É isso que Barnum quer dizer ao perguntar pro seu crítico mais fiel há quanto tempo ele não sorri.

“Você é um crítico de teatro que não se diverte com o teatro. Quem é a fraude aqui?”

Por último, é preciso ser dito que a trilha sonora é extremamente maravilhosa, viciante e com uma pegada bem pop e atual, eu diria também(quando cheguei do cinema, a primeira coisa que fiz foi entrar no youtube pra ouvir todas as músicas novamente, sem parar).

Indico A Million Dreams, The Other Side, Never Enough e This is Me (saiu a versão da Kesha também. Já ouviram?)Os números musicais são muito bem coreografados e prendem a atenção do público do início ao fim, diferente de muitos musicais que existem por aí. Não fica cansativo, pois o roteiro soube equilibrar bem os musicais com os diálogos.

Pode não ter um roteiro muito surpreendente, pois tem momentos super previsíveis e até clichés. Entretanto, é o tipo de filme que te conquista pela emoção. É visível o coração e a alma empregados nele, tanto pelo elenco que, sem exceção, está completamente entregue ao trabalho que realizaram juntos, quanto pela direção, coreógrafos, preparador vocal, etc…

Eu entrei no cinema me sentindo meio apática e descrente das coisas e saí mais leve, revigorada, inspirada e por incrível que pareça, mais eu mesma. E O Rei do Show tem mesmo esse poder de trazer vida onde parecia não ter mais esperança, onde tudo parecia estar perdido.

Eu enxergo o filme como uma ótima oportunidade de recuperar o prazer pelas coisas e principalmente, pela arte. E também como uma maneira de se reconectar consigo mesmo, através dos sentimentos, a fim de se reencontrar na vida e redescobrir seus dons que ficaram ocultos com a falta de emoção e inspiração.

Espero que vocês tenham a mesma experiência que tive com o filme. Chorei praticamente nas duas horas e dezenove minutos de sua duração, mas quando acabou, tive a certeza de que pelo menos durante aquele tempo, eu estava de volta a mim mesma depois de muito tempo longe.

Deixo abaixo minha música preferida do filme. Tente não se emocionar <3

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