Revista

Para você que se perdeu no meio de um pensamento

Você já se perdeu no meio de um pensamento? Eu já, várias vezes. Aliás, vivo fazendo isso. Gosto de caminhar pela cidade, olhar as coisas em volta e produzir pensamentos a respeito delas. E, é claro, vou trocando de pensamentos o tempo todo. Novas coisas aparecem, alguém me para, tropeço, espirro, qualquer coisa, e o pensamento vai embora. Logo, um outro entra no lugar. Sou pródigo de pensamentos. A maior parte deles serve para nada. A outra parte, a menor, também de nada serve. Meus pensamentos são bobos, fúteis, simplórios. Quer ver?

Fico olhando para o cara que para bem em frente ao meio da porta do vagão do metrô. Ele sabe que vai atrapalhar a vida de todo mundo, mas, mesmo assim, ele para ali. O que leva aquele sujeito a ficar naquela posição estratégica que torna tudo mais difícil para quem quer sair ou entrar no vagão? Será que ele tem medo de ficar preso no meio do carro e nunca conseguir sair? Será que ele gosta do tranco que as pessoas dão nele quando entram ou saem? O que leva aquele infeliz a ficar desconfortavelmente ali. Isso, infeliz. Talvez ele seja infeliz. Talvez não consiga se relacionar com as pessoas e imagine que a única chance de conhecer alguém seja esbarrando com ela no metrô. Por isso, escolheu um lugar tão apropriado para um esbarrão. Deve ser difícil ter essa dificuldade toda para entrar em contato com as pessoas.

“Estação Glória, desembarque pelo lado direito.”

É a minha estação e eu desembarco. Eu e mais um monte de gente. Subimos por uma escada que tem um aviso dizendo: “sem saída”. Apesar do aviso, sabemos que é impossível não ter uma saída por ali. Subimos e… há uma saída! Apenas uma roleta é de saída (todas outras são para embarcar), mas há uma saída. Como sabíamos que o metrô estava mentindo? Será que acreditamos que o metrô mente para todos? Será que só eu li o aviso e fui atrás de todas as outras pessoas que subiam a escada com a segurança de quem sabe o que está fazendo? Será que todas as pessoas queriam desafiar o metrô e, talvez, exigir uma saída onde não estava previsto ter? Afinal, porque o metrô não quer que saiamos por ali? Que interesse ele tem em nos manipular e nos enviar para uma escada mais longe do que onde estávamos?

Vou saindo da estação pensando nisso e já pego o meu guarda-chuva para caminhar até o escritório. Mas não está chovendo. Pelo contrário, faz sol. Será que só em Vila Isabel estava chovendo? Ou será que só na Glória faz sol? Por que o clima é tão maluco no Rio de Janeiro? Choveu só para eu lotar a mochila de coisas (minhas e das meninas, porque levei-as às escolas de manhã cedo)? Será que vai chover mais tarde? Ih, preciso sacar dinheiro. Faço isso agora ou depois? Poderia aproveitar logo agora e ir até o banco. Ah, vou depois, quando for almoçar. E se estiver chovendo na hora do almoço? Mas não parece que vai chover. Mas e se? E se nada, vou depois, até porque fui pensando e andando e já estou na portaria do trabalho. Cadê a recepcionista? Será que ela se atrasou por causa da chuva? Será que também estava chovendo onde ela mora? Ou será que teve algum problema? Não, tadinha, nada de problemas, só um atraso normal. E se alguém chegar para uma reunião, como se comunicará? Ah, pelo celular, é claro. Mas, e o crachá? Como algum visitante vai circular sem o crachá? Ah, olha ela lá chegando.

— Oi, Marcio, bom dia! Atrasei por causa do trânsito. Pensei que nunca ia conseguir chegar.

Mas chegou. Trânsito e chuva não combinam. Talvez ela não more perto do metrô. Com o metrô é mais fácil. Só não é fácil para sair, se tiver alguém parado bem em frente ao meio da porta do vagão. Isso, o cara na porta do vagão! Quem sabe eu consigo acabar o pensamento lá do metrô? Mas, e essa luminosidade? Acendo ou não a luz da minha sala? Será que dá para trabalhar só com a luz do dia? Mas não estava chovendo? E eu me esqueci de sacar dinheiro…

Pai de duas meninas. Antes disso, não era lá grande coisa. Não resiste a um olhar pidão das filhas, principalmente se for acompanhado de um cafuné ou de um sorriso rasgado, mas tem certeza de que está no controle.

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