Literatura e História

Política no Brasil: cataclismo distorcivo coletivo

Corrupção, segundo o mais tradicional dicionário on-line da Língua Portuguesa*, é o ato ou efeito de corromper ou de se corromper. Pode significar também o comportamento desonesto, fraudulento ou ilegal que implica a troca de dinheiro, valores ou serviços em proveito próprio. Ou, ainda, degradação moral.

Porém, há um significado mais antigo, voltado para os aspectos da deterioração física de uma substância ou matéria orgânica que basicamente indicamos por apodrecimento ou putrefação. Embora as definições apresentadas inicialmente pareçam mais compatíveis com a atualidade da política brasileira, a acepção citada neste parágrafo é a que nos seduz.

Sim, a sociedade brasileira, no campo político, está anômica e apodrecendo pouco a pouco. Um processo iniciado há muitos séculos atrás, é verdade. Dizer que os políticos são todos corruptos e que estamos atolados em uma lama praticamente impossível de sair já não assusta mais.

Porém, a sociedade brasileira não vive um contexto à parte. Estamos enlameados, patinando e cavando um buraco cada vez mais fundo. Nas apreciações desenvolvidas sobre os aspectos políticos da terra da ibirapitanga é lugar comum criticar nossos governantes, imputando-lhes todos os tipos de adjetivos e indecências, mas excluindo o “povo” como se não fossemos merecedores de tais elogios.

Até quando as velhas máximas aparecem: “somos nós que os colocamos lá”, a análise parece desconectada de que o país, em muitos cenários, é deteriorado. Não são somente os estadistas, somos nós, indivíduos no pleno gozo dos direitos civis e políticos de um estado livre, mas não livre dos desarranjos, desmandos e desvirtudes.

Se o nosso contexto político vai mal, então vamos todos mal. Assim, se é necessário tornar a política mais limpa, embora manchas sempre hão de aparecer, precisamos nos desinfetar primeiro. É indispensável nos reconhecer dentro da política. Somos integralmente conectados a ela em um processo eterno de reciprocidade.

O brasileiro precisa reflexionar em termos de cultura política, ou seja, um conjunto de atitudes, valores, normas e crenças que são compartilhados por uma determinada sociedade, que obviamente inclui as instituições políticas, mas não somente os tópicos relacionados a ela. Talvez aí resida o ponto chave da mudança tão procurada.

Em meio a esse cataclismo distorcivo coletivo, ou seja, imersos nesse desastre social que se deforma e desvirtua-se, é preciso uma transmutação de nossas atitudes cotidianas viciadas, deturpadas, contaminadas pelo monstro da corrupção. Antes de mudar os rumos da política no Brasil, precisamos mudar a nós mesmos. Ou agimos assim, ou daqui a cem anos ainda estaremos letárgicos.

* “Corrupção”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/corrup%C3%A7%C3%A3o [consultado em 10-03-2018].

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