Literatura

Resenha | A filha perdida, de Elena Ferrante

“Falei que o sono é o que me fizera sair da estrada. Mas eu sabia perfeitamente que esse não fora o verdadeiro motivo. O motivo havia sido um gesto sem sentido, sobre o qual, justamente por ser sem sentido, decidi não contar a ninguém. As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender” (p.6)

Elena Ferrante fecha o primeiro capítulo de A filha perdida com esse trecho. A história que Ferrante nos apresenta tem como ponto de partida um acidente de carro sofrido pela personagem principal, Leda. Uma mulher divorciada, com filhas grandes e professora de uma universidade italiana, que nos apresenta os seus pensamentos mais íntimos.

Leda, depois que suas filhas foram morar com o pai delas no Canadá, viaja de férias para uma região de praia na Itália. Lá, ela observa uma família napolitana, cujos modos a incomoda. Uma mulher, na faixa dos 20 e poucos anos, e sua filhinha a chama atenção. A relação entre mãe e filha parecia ser a ideal. Aquela que todos projetam para a maternidade. Leda, por sua vez, vai nos revelando aos poucos sua história, a relação que teve com sua mãe e sua própria experiência como mãe.

As revelações de Leda podem ser fortes, dependendo do leitor. Isso porque elas atingem o mais alto grau de elevação que a sociedade impõe às mulheres, a maternidade. Suas ações no passado e no presente podem ser consideradas repugnantes e a personagem sofre julgamentos.

A intenção de Ferrante é justamente nos fazer pensar sobre o papel de mãe que nos é atribuído. Será que o desejo de ser mãe é nosso ou é uma necessidade imposta pela sociedade? A mulher tem esse poder de escolha?

Apesar dessas questões poderem passar pela cabeça do leitor, o olhar mais importante que tive enquanto lia A filha perdida era o de ver minha mãe como um ser totalmente humano, sem nenhuma idealização. Olhar para ela e entender ou apenas notar todas as suas frustrações enquanto mulher e não apenas enquanto mãe.

“O que eu tinha feito de tão terrível, afinal? Anos antes, havia sido uma garota que se sentia perdida, isso era verdade. Todas as esperanças da juventude já me pareciam destruídas, era como se eu estivesse caindo para trás na direção da minha mãe, da minha avó, da cadeia de mulheres mudas ou zangadas da qual eu derivava. Oportunidades perdidas” (p.87)

Em A filha perdida também refletimos também sobre a mulher na sociedade atual. O que conquistamos de fato? O que ainda mantemos das mulheres que nos antecederam? Estamos emancipadas? Os homens, na disputa da vida, concorre de forma justa com a gente?

A identidade da autora é desconhecida. Elena Ferrante é um pseudônimo de uma italiana e sua obra mais famosa é a Tetralogia napolitana. Há algumas entrevistas e colunas publicadas por ela que podemos encontrar facilmente na internet. No The Guardian, ela já escreveu sobre sua visão sobre o feminismo e seus desafios. Em uma entrevista feita via email, também já discutiu sua forma de escrita e o porque de escrever usando um pseudônimo.

Escrever sobre esse livro é passar ao documento em branco as experiências que tive enquanto leitora. Provavelmente, outros tiveram outras sensações, outros pensamentos, o que torna o livro um espaço rico de debate. É um livro curto, de leitura rápida, mas com muitas questões sobre ser mulher e ser mãe.

Historiadora, feminista e dog lover que está aprendendo a se amar e aceitar quem é.

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