Críticas,  Literatura

Resenha | Extraordinário, de R.J. Palacio

“Não tenha amigos que não estejam à sua altura.”

O livro de J.R. Palacio não é exatamente sobre o resultado de um problema genético. Também não é apenas sobre um garoto diferente indo pela primeira vez à escola. Se tem algo que a autora faz é explorar o lado social disso, muito além das ideias que temos de colégio norte americano.

August está no quinto ano, e se tem uma coisa que ele não gosta nas pessoas da sua idade é o fato de que elas falam as coisas sabendo o quanto podem (e muitas vezes vão) magoar outras. Quando se é criança não há filtro, nem maldade, agora, entretanto, a realidade é outra.

“Agora, pensando bem, não sei por que fiquei tão estressado com isso. É engraçado como às vezes nos preocupamos muito com uma coisa e ela acaba não sendo nem um pouco importante.”

É essa nova realidade que ele encontra assim que aparece na escola. Já tendo sido apresentado à Jack Will, Julian e Charlotte, que, a pedido do diretor Sr. Buzanfa, mostraram a escola a ele, é um alívio quando Jack ocupa o lugar ao seu lado na primeira aula e conversa ao longo do dia. Summer é quem lhe faz companhia na hora do almoço, primeiramente por pena, mas torna isso um hábito quando vê quão divertido August é.

Essa não é nem de perto sua maior dificuldade. Julian parece fazer de tudo para tornar seu dia a dia constrangedor, com indiretas dispensáveis, e o olhar de todos os outros alunos (junto às fofocas) são uma prova constante de que ele a princípio não faz parte daquele grupo.

“[…] Não precisamos de olhos para amar, certo? Apenas sentimos dentro de nós.”

É com esse pontapé inicial que vamos lendo a história de um garoto que se desenvolve, junto às outras personagens, de forma inquestionável. Extraordinário não é apenas mais um livro sobre um tema de certa forma popular, o preconceito. É principalmente sobre amizade, sobre se manter firme em si mesmo e confiar em quem merece ser confiado. Literalmente escolher amigos que estejam à sua altura.

Interessante notar que nem sempre sabemos da história pelo Auggie. Às vezes é sua irmã que fala, tornando-se menos heroína e mais humana a partir de seus pensamentos, ou o namorado dela, que pouco conhece dele. Outras é Jack, suportando tudo que ser amigo de uma pessoa que não está nos moldes impostos implica, e até mesmo Miranda, um exemplo desde o início.

“[…] Se cada pessoa nesse auditório tomar por regra que, onde quer que esteja, sempre que puder, será um pouco mais gentil que o necessário, o mundo realmente será um lugar melhor. […]”

Extraordinário vai fazer você sorrir com Nate, pai de August, chorar com momentos mais intensos, querer bater palmas ao fim e poder encher de beijos uma personagem que é exemplo de determinação e coragem. Mais que isso, é uma lição de vida, que devemos carregar para sempre conosco, porque aparência não é nada comparada ao tudo que o ser humano é.

365 DIAS EXTRAORDINÁRIOS

365 dias extraordinários
Quase quis fazer de 365 Dias Extraordinários uma leitura diária. Literalmente pegar o livro uma vez por dia, ler a frase respectiva e tentar levar as demais horas de uma forma mais positiva.

Acabei desistindo da ideia, mas guardei as melhores frases (que acabaram sendo muitas!) para ler em momentos que as coisas parecessem difíceis. Acho que foi o mais adequado. E acredito que essa seja uma das principais funções de livros assim.

365 Dias Extraordinários me fez lembrar de algumas coisas que acabam ficando esquecidas na pressa do dia a dia. E reforça outras que faço questão de nunca deixar de lado. Para exemplo deste último, vejo a amizade.

Eu fico muito feliz em poder dizer que hoje tenho amigos incríveis. O que não significa que a gente não brigue, ou não dê aquela raivinha de vez em quando, mas, nos momentos difíceis, eles estão lá. E nos fáceis, eles estão comemorando comigo.

Aprendi o que era amizade verdadeira tarde, depois de muitas e muitas decepções. Falar de amizade é, então, assunto sério e quando vejo frases que a valorize, minha vontade é imprimir e mandar por correio (bem old fashion mesmo) para todas as pessoas importantes.

Por sinal, mostre sempre às pessoas importantes que elas de fato são. Pode parecer besteira, mas ninguém é obrigado a saber o que nós não falamos. Fale sempre, não guarde. Demonstre. Isso vale ouro.

Já percebeu como muitas vezes você se contenta com o que é cômodo? Ou fácil? Ou sem pensar no outro? Há pouco tempo, decidi tomar duas atitudes. Uma delas sua mãe te ensinou, a outra a vida vai te provar.

Não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você, mas se fizerem com você, faça com eles. As pessoas costumam aprender quando sentem na própria pele.

É pensa só: a criança geralmente aprende que não pode colocar o dedo na tomada depois que o coloca, mesmo com os pais falando sempre que não pode. Quando adultos, a noção de justiça fica meio nublada.

Preste atenção: se sua mãe cobrar mais caro por um serviço que vale bem menos pois a situação financeira está complicada, a maior parte das pessoas achará que tudo bem. Primeiro, ela é a mãe. Segundo, está necessitada. Terceiro, isso de certa forma te favorece.

Agora pense que a mãe é sua dentista e você descobre que está pagando duas vezes mais que o necessário. Ela, por sinal, não é a sua mãe, é de outra pessoa (que você não necessariamente conhece). Soa muito mais injusto, não?

Por isso que a frase da imagem se torna importante para mim. A gente reclama do Brasil, dos políticos, dos religiosos que fazem tudo menos aplicar o que a religião diz no dia a dia. Mas, muitas vezes, fazemos exatamente o que condenamos nos outros.

O que quero dizer é pura e simplesmente que 365 Dias Extraordinários contém 365 frases que vão te fazer repensar todas as suas atitudes e pontos de vista. Se você estiver disposto, claro. Ele cria questionamentos que cabe a você responder.

SOMOS TODOS EXTRAORDINÁRIOS

Somos todos extraordinários
Auggie Pullman está de volta para mais um livro baseado no romance de R.J. Palacio, Extraordinário. Dessa vez, a história é narrada de uma forma bem mais simples, claramente voltada para crianças, com ilustrações belíssimas criadas pela própria autora.

Para quem não conhece, Extraordinário narra a história de um garoto (Auggie) que, como ele mesmo define, não é um garoto comum. Ele faz coisas comuns: anda de bicicleta, brinca com a cachorrinha, toma sorvete; mas sua aparência está longe de qualquer coisa similar ao comum.

No quinto ano do colégio, ele entende pela própria família que é extraordinário — algo que a própria mãe fala para ele. Infelizmente, isso não é algo que toda e qualquer pessoa consegue saber: a maioria aponta, ri e faz comentários, mesmo sabendo que o garoto está ouvindo. A maioria só vê seu rosto incomum, e o define a partir disso.

A Terra é muito grande. Cabe todo tipo de gente.

Mais uma vez R.J. Palacio trabalha o tema de forma delicada e inteligente. Com ilustrações muito bem elaboradas, mas sem fugir da simplicidade que a história pede, ela narra de forma sucinta um pouco da vida de Auggie — e mais uma vez mostra que ele, eu, você, todos nós, somos extraordinários da nossa própria maneira.

O livro é infantil, portanto as frases são curtas e diretas, levando mensagens que cabem em poucas palavras, mas que são capazes de se mostrar realmente relevantes para quem ainda está em formação. E vale como introdução para, futuramente, ser lido o livro que deu origem a este.

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