Críticas,  Literatura

Resenha | O Sol na Cabeça, de Geovani Martins

Livro de estreia de Geovani Martins, O Sol na Cabeça narra, em treze contos, as peripécias e frustrações de crianças ou jovens nas favelas do Rio de Janeiro. O escritor, de 26 anos, nasceu no bairro de Bangu, cresceu na comunidade da Rocinha e hoje mora no Morro do Vidigal.

Quando o autor participou, em 2013, da Festa Literária das Periferias (conhecida como Flup), sua história começou a tomar forma. Dois anos depois, foi a vez de participar da Festa Literária Internacional de Paraty (a famosa Flip), onde mostrou seu talento despojado e realista.

A narrativa de O Sol na Cabeça conquista o leitor logo na primeira frase de Rolézim, conto de abertura da obra, que narra o embate eterno entre jovens da periferia com a polícia nas areias da zona sul.

Já em Espiral, Geovani relata o convívio entre um morador de classe média e um adolescente do subúrbio, demonstrando de forma consciente o tamanho da desigualdade entre o asfalto e o morro.

Destacam-se ainda os contos O Caso da Borboleta e O Mistério da Vila. No primeiro, o encontro entre um garoto e uma borboleta descuidada que cai numa panela de óleo, enquanto sua avó ronca com a TV ligada na novela das sete. No segundo, a trama segue o imaginário folclórico e juvenil em torno de uma velha macumbeira.

Na contracapa do livro, o roteirista João Moreira Salles destaca: “Geovani pula da oralidade mais rasgada para o português canônico como quem respira”. Isso é perceptível em cada conto, que parece ter sido escrito por uma pessoa diferente.

Acho que boa parte do sucesso do livro tem a ver com o perfil, trajetória e realidade vivida pelo escritor, além do talento e habilidade em retratar as experiências com sensibilidade e sem firulas. Geovani disserta sem medo sobre a violência policial, vício, tráfico de drogas, morte, intolerância religiosa, entre muitos outros assuntos que, infelizmente, fazem parte da rotina da comunidade.

Me chamou a atenção um trecho do conto Roleta-Russa:

“Paulo precisou descarregar o revólver antes de começar o polícia e ladrão. Todo mundo queria estar no time dele, e era bom viver assim. Na hora de escolher um lado, hesitou. Normalmente, Paulo prefere disputar pelo time dos ladrões, porque é muito chato ficar correndo atrás dos outros o tempo inteiro (…) Mas dessa vez acabou escolhendo o time da polícia, pois desejava perseguir cada um de seus amigos, apontar a arma bem no meio de suas cabeças, apertar o gatilho…”

Com tiragem inicial de dez mil exemplares, a obra teve o feito inédito de ser vendida para nove países antes mesmo do lançamento no Brasil. Além dos Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra, as tramas serão lidas também na China. Além disso, em alguns anos, os contos serão adaptados para o cinema.

34 anos, jornalista apaixonada por fotografia e gastronomia, está sempre sonhando em viajar o mundo.

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