Literatura e História

Sobre romance… Vargas Llosa

Há várias formas de se escrever um romance. Muito além de respeitar cânones literários para a construção desse tipo de texto, a escrita do romance varia muito em intenção e estética, muito em função também do período em que é escrito e por quem é escrito, obviamente. Permite uma certa liberdade, no sentido da criação, expressão e ritmo em que todo o enredo é apresentado, mas sempre com a necessidade de parâmetros da escrita, pois ele precisa se fazer entender — ou, ao menos, deveria — ainda que exija muita dedicação da parte do leitor.

São muitos os vieses dois quais poderíamos partir na busca de uma interpretação do que de fato é a elaboração de romances e suas intenções. Por exemplo, autores podem se dedicar à escrita desse gênero literário com intenções de nos mostrar a realidade de outra forma e derivando disso, indicar as mazelas e problemas de sua sociedade, fazendo o leitor refletir (com a intenção de que seja mais uma ferramenta para o debate de determinado assunto), ou simplesmente apenas entreter.

É possível também trabalhar questões de fundo humanista, afetivo, psicológico, entre outros, ainda que em diversas vezes seja difícil identificar a temática ou o propósito do texto.

Muitos autores literários, críticos e estudiosos versam constantemente sobre o tema, permitindo uma vasta gama de conceitos e diferentes formas de interpretação. No entanto, muito chama atenção a forma com que Mario Vargas Llosa, vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 2010, aponta algumas características do que é o romance para ele.

Em sua autobiografia, Peixe na Água, Vargas Llosa aponta que boa parte do que fez como romancistas foi usar uma experiência pessoal como ponto de partida para a fantasia, empregando uma forma que finge ser realista por meio de detalhes geográficos e urbanos preciosos, obtendo assim uma objetividade através de diálogos e descrições feitas a partir de um ponto de vista que chama de “impessoal”, apagando traços de autoria; e principalmente, fazendo uso de uma atitude crítica em relação à determinada problemática, ou seja, o contexto ou horizonte do enredo.

Logicamente, como citado no começo do texto, os romances variam e isso depende das crenças de seus atores, o que norteia seus pensamentos e forma de agir. Vargas Llosa relata, no mesmo livro, que uma das funções mais importantes da literatura, “sua vocação”, era ser uma forma de resistência ao poder, ou seja, uma atividade a partir da qual todas as formas de poderes pudessem ser permanentemente questionadas, pois a boa literatura, segundo seu ponto de vista, mostra as “insuficiências da vida, a limitação de todo poder para preencher as aspirações humanas”.

Acreditava ainda, ser ingenuidade de alguns escritores de seu tempo pensar que seria possível escrever bons romances apenas inventando bons “temas”, pois um romance bem-sucedido é mais que isso,

“é uma esforçada operação intelectual, o trabalho de uma linguagem e invenção de uma ordem narrativa, de uma organização do tempo, de determinados movimentos, de determinada informação e de determinados silêncios dos quais depende por completo que uma ficção seja verdadeira ou falsa, comovedora ou ridícula, séria ou tola.”

Importante ressaltar que o próprio romance tem subdivisões, se assim posso dizer, diversas formas e roupagens. Vargas Llosa nos aponta uma delas, fazendo uso de seus romances também para expor suas críticas à realidade peruana, em diversos aspectos como o político, econômico, cultural e social, prezando sempre pela questão da liberdade.

Ainda que existam muitas formas de se “romancear”, é interessante que novos escritores e os já calejados de nosso período pensem, à luz dos mais diversos pontos de vistas, sobre o que é escrever para si próprios e, principalmente, o por quê de se escrever, para muito além de cumprir um desejo pessoal, cooperar de fato para que o campo da Literatura se enriqueça e venha a contribuir para a sociedade de alguma maneira ou de diversas maneiras.

E, embora se tenha abordado aqui a questão do romance segundo a perspectiva vargallosiana, é importante refletir sobre esses questionamentos, seja lá qual for o gênero literário escolhido. Não que todo o texto literário necessite que resulte dele uma ação prática na realidade humana, mas que romances, contos, poemas, etc., não sejam apenas um exercício vago, errante e incerto.

28 anos, professor universitário e historiador. Apaixonado por futebol, comida, viajar e rock 'and' roll.

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