Séries

Stranger Things é um mix de referências com direito a uma viagem aos anos 80

A nova série da Netflix, Stranger Things, está fazendo muito sucesso e gerando bastante repercussão devido às inúmeras referências contidas nela.

Além de garantir uma viagem de volta aos anos 80 para aqueles que cresceram assistindo Os Goonies, Conta comigo, Poltergeist, Garotos perdidos, Alien, E.T e vários clássicos do Spielberg na sessão da tarde, conquista também os que, assim como eu, nasceram depois dessa época.

Os mais velhos poderão matar a saudade da infância, enquanto os mais novos terão a oportunidade de sentir o gostinho dos anos 80 misturado com referências mais atuais. Atingindo, assim, o público de todas as idades.

Além da própria história se passar numa cidadezinha, no interior de Indiana, no ano de 1982 e consequentemente, o cenário, figurino, cabelo, fotografia, abertura e trilha sonora (que por sinal é maravilhosa) estarem de acordo com a época, toda a atmosfera da série remete aos anos 80.

Infelizmente, só nasci nos anos 90, mas segundo a opinião daqueles que vivenciaram essa época e pelo que eu pesquisei a respeito, não teve período melhor para os fãs de fantasia e ficção científica do que os anos 80. Tanto é que séries e filmes lançados mais tarde tiveram muita influência da cultura e elementos criativos daquela época. E isso pode ser notado em Stranger Things.

As cenas que a Eleven entra no tanque a fim de entrar em contato com a outra dimensão, a empresa misteriosa que faz experimentos científicos, o fato da El ser uma criança com habilidades especiais e ser testada por isso, e até o próprio universo paralelo em si, me lembraram muito Fringe.

Nessa série, criada por J.J. Abrams, em 2008, a protagonista Olivia Dunham também foi exposta a experimentos científicos quando era criança e em vários episódios entrou num tanque pelo mesmo motivo que a El em Stranger Things. Além das duas séries apresentarem uma realidade alternativa a nossa.

O núcleo da escola, formado por Nancy, Steve, Barb e Jonathan, lembra muito a primeira temporada de Bates Motel quando o Norman Bates chega à cidade e precisa conviver com outros adolescentes. Aliás, o próprio irmão de Will tem uma certa semelhança com Norman por causa da proteção que tem com a mãe e as expressões que os dois personagens fazem em vários momentos. Além de todo cenário que também remete aos anos 80.

A cena que a Nancy entra dentro de um caule de árvore, o fato da criatura sair de outra dimensão através da parede e ser atraído por sangue (só que no filme que vou citar, o sangue alimentava uma planta), as crianças criando todo um universo fantástico em volta delas (com a diferença que em Stranger Things a fantasia é real) e o mundo real contrastando com uma realidade fantástica e obscura, remete ao filme Labirinto do Fauno, do diretor mexicano Guillermo del Toro.

A atmosfera sombria de suspense, terror e mistério e até um pouco a abertura, lembra a atual American Horror Story, série de terror que a cada temporada conta uma história diferente e contém milhares de referências também, muitas delas dos anos 80.

A presença de Winona Ryder que dá vida a Joyce, uma mãe desesperada para encontrar o filho que está preso em outra dimensão, e o cenário de cidade pequena lembram Edward mãos de tesoura, filme de 1990.

A amizade e lealdade entre crianças faz alusão a outro filme de 1990, o clássico It que foi baseado numa obra de Stephen King. Porém, não tem como apontar apenas uma referência ao autor, pois Stranger Things o homenageia do início ao fim. A dinâmica entre realidades, o questionamento do mundo real e a presença de um governo cheio de mistérios são materiais clássicos dos livros de terror de King.

E não podemos deixar de citar a maior série de ficção científica dos anos 90, Arquivo X. Nela, dois agentes do FBI investigam casos não solucionados envolvendo fenômenos paranormais. Praticamente todas as séries que envolvem mistérios, ciência e conspirações foram influenciadas por Arquivo X.

Sem ela, não existiria Fringe e nenhuma outra sucessora. Porém, sem os clássicos dos anos 80 (principalmente os do Steven Spielberg) talvez não existisse Arquivo X, pois os anos 90 se alimentaram da cultura de fantasia e ficção do período antecessor.

Além de todo esse mix de referências com direito a uma viagem aos anos 80, a série só tem 8 episódios que nem dá para sentir o tempo passar. A impressão é que estamos vendo um longo filme ao invés de uma série, por isso dá pra maratonar tranquilamente sem ficar cansativo.

Apesar da narrativa ser bastante ágil, com muito ritmo e nada ser descartável, pois tudo que acontece é importante para dar continuidade ao enredo, as informações não pesam.

Sem contar que um dos pontos chaves de Stranger Things é o núcleo mirim, formado por Dustin, Mike, Will, Lucas e El. Em muitos momentos eles são o alívio cômico da série no meio de tanta tensão, principalmente Dustin, que representa pra ST o que o Hurley representava pra Lost.

É lindo como eles ensinam pra Eleven o conceito de amizade (“amigos não mentem”) e incrível como ao mesmo tempo que ela é tão forte e capaz de protege-los (e até de derrubar um furgão só com a força do pensamento), ela ainda é tão inocente a ponto de não saber coisas simples como o que é um pudim (mais alívio cômico!) ou que é amizade (conceito nem tão simples assim). Da mesma forma que eles aprendem com ela, ela também aprende muito com eles.

É importante notar como as crianças por serem tão imaginativas, conseguem lidar com o problema com muito mais facilidade do que os adultos da série. O amigo está preso em outra dimensão correndo risco de vida, estão perseguindo a El, todos estão em perigo, mas eles levam tudo na “fantasia”.

Nem sentem a gravidade da situação. É como se fosse uma aventura, um desafio, uma brincadeira de criança para eles. Ou melhor, a continuação da brincadeira, já que eles já brincavam disso antes e já tinham dado até um nome para a criatura que vive em outra dimensão.

A diferença na maneira de reagir ao problema fica clara quando a amiga de Nancy, irmã do Mike, some também. Pra Nancy, aquilo tudo era muito surreal, nunca passou pela cabeça dela que podia existir uma outra dimensão e muito menos que Barbara seria levada pra esse lugar através de um monstro que é atraído por sangue e pode sair de dentro da parede.

Por isso, a garota ao saber dessa trama toda, logo se desespera. Ao contrário de seu irmão, que por ser uma criança nerd que lê muito e vive no mundo da imaginação (assim como seus amigos) enxergou o problema de uma forma bem mais madura e equilibrada do que ela. Afinal, ele nunca duvidou que todo aquele universo fantástico e sombrio existia mesmo.

Falando sobre a nerdice deles, em vários momentos eles repetem lições de livros que leram (tem várias referências a Tolkien), mas sempre com um ponto de vista lúdico sobre as coisas. Além disso, são ótimos alunos e amigos do professor de física da escola.

E tem também, o policial Hopper (alguém mais achou ele a cara do Michael Hall?), o único que acredita em Joyce (Winona Ryder) e faz de tudo para ajudá-la a encontrar o filho. Como mostra os poucos flashbacks da série, ele perdeu a filha no passado e por isso entende o que ela está passando com o desaparecimento de Will.

E aí? Se animou a assistir a série? Ainda não? Então, se eu não consegui te convencer, vou deixar essa tarefa pra quem entende bem do assunto. Passarei a palavra pra Stephen King e Guillermo del Toro; se os mestres do terror e fantasia não forem capazes de te convencer, então, ninguém consegue.

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