Críticas,  Literatura

Resenha | Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente

Lançamento da Globo Alt para o fim do ano, Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente, ou, carinhosamente, TCD, é um livro de 304 páginas, dividido em quatro partes, que fala um pouco sobre exatamente aquilo que evitamos: fuga, vazios, despedidas, abandono; e sobre a contra corrente que grita que sentir demais não é negativo.

Baseado na página do Facebook o livro traz textos curtos e longos, com muitos parágrafos e sem parágrafo algum, escritos por Igor Pires— todos intercalados por ilustrações simples, mas muito significativas de Anália Moraes, artista multitalentosa que também ilustrou o maravilhoso livro de Gaía Passarelli.

TCD segue a linha de nomes do mesmo gênero como Frederico Elboni, Ique Carvalho, Zack Magiezi, Lucão e Matheus Rocha. Seus textos são sobre a vida e a realidade, sobre amores que não dão certo e sobre aquele único amor que precisa seguir intacto — o próprio. É sobre recomeços, tentativas, sobre exaustão e momentos que não queremos nada além de ficar deitados em nossa cama, vendo a vida passar.

“este texto é pra te alertar que a gente segue independente de.”

A leitura, feita em um dia, é fluida e muito poética; não por palavras que rimam, mas a forma de escrever em si. Sem dúvida, toca o nosso coração de um jeito único, ainda que não necessariamente pacífico. Essa não é intenção do livro, por sinal. E eu não teria nenhum problema com isso se o tom empregado nas palavras não fosse tão negativo.

Às vezes penso que o mundo já é cruel demais para que fiquemos mergulhados em pensamentos tão tristes. A identificação é natural — quem nunca sofreu por um amor não correspondido? Ou que foi correspondido por um tempo limitado?

Quem nunca se viu em posição de algo não fazer mais sentido e precisar tomar uma atitude? Pergunto-me quantas pessoas não pensaram em fugir por uns tempos, ficar desconectadas deste mundo — , todavia nem sempre é dela que precisamos.

“porque o amor existe pra te provar que seu sistema não falhou.”

Em tempos de depressão e ansiedade, ambas que já fizeram e fazem parte da minha vida de diferentes formas, procuro algo que me faça ter esperança, não que me deixe mais crente que, no fim das contas, nos restam despedidas e abandonos.

Não me entendam mal, é importante que se fale sobre o assunto, que se pense a respeito, que ambos sejam encarados de frente. É importante que não nos sintamos tão sozinhos. E é importante entender que somos nossos melhores amigos, e que precisamos cuidar de nós mesmos da mesma forma que cuidamos de quem amamos de todo coração.

Mas também é importante lembrar que podemos pedir ajuda, que nem todo mundo vai embora, que tem quem escolhe ficar — e que essa não é a maioria, mas é uma parte relevante, e precisa ser lembrada. É preciso falar também sobre apoio, sobre como fugir não te salva de si mesmo ou dos outros, que recomeços incluem choros mas também sorrisos.

“porque há dias que doem mais que outros.”

E foi disso que senti falta aqui. Meus medos e anseios e ansiedade vieram à tona enquanto eu lia o livro. Não me senti em paz ou compreendida, me senti completamente sozinha. Não tiro o mérito da escrita, do contexto, do trabalho: está tudo incrível; só preciso também ressaltar que, talvez, esse não seja o momento certo para você ler este livro.

Não era o meu. Não sei se algum dia seria. Não porque eu não entenda que essas coisas existem, e que eventualmente precisaremos lidar com elas, de novo e de novo, mas porque não quero acreditar que o mundo é feito somente disso.

“eu tenho medo de enlouquecer, e você?”


NOTA — ★★★

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