Música

What About Us da Pink é um grito à Deus em meio ao nosso desespero e falta de fé

São tantas tragédias, tantas desgraças, tantas desuniões e desafetos por todos os lados, que nos dá a impressão de que estamos sendo bombardeados por uma torrente de peso e negatividade sem perspectiva de ao menos uma amenização futura.

Diante disso, nos questionamos; E quanto a nós? E quanto aos nossos anseios e esperanças? Há algo neste mundo, seja humano ou energético, olhando por nós? Fomos jogados onde estamos e destinados a acumular cada vez mais pesares sem que nos fosse dado o direito de uma mera orientação, pelo menos?

Será que não existe algo ou alguém no qual possamos realmente confiar nas horas de solidão e desespero? Quem irá nos guiar caso ficarmos tão perdidos a ponto de perdermos nossa rota de volta e não formos mais capazes nem mesmo de nos reconhecer? E quanto a nós, meu Deus, e quanto a nós?

É isso que a música What About Us, do novo album da cantora Pink, nos leva a refletir. Como poderemos seguir sem que haja alguém por nós? E se não estamos abandonados, como muitas vezes pensamos, então por que essa sensação de falta, miséria em todos os sentidos e, rejeição com os outros e com nós mesmos? Por quê?

Como a letra diz; Nós somos problemas que querem ser resolvidos e somos crianças que precisam ser amadas. Afinal, será que um dia deixamos de ser crianças de fato ou apenas usamos um disfarce de adulto pra sobreviver em sociedade?

Nossa criança interior simplesmente se desprende de cada um de nós no momento que nossa faixa etária não permite mais que sua presença seja visível aos olhos de todos ou ela continua lá, escondida dentro da gente, mas guiando cada escolha e movimento nosso pelo resto de nossas vidas?

Se somos mesmo seres de luz merecedores de toda felicidade do mundo como todas as religiões pregam, então como as taxas de depressão, ansiedade, crises de pânico, apatia, dentre outras doenças da mente (ou seriam realmente da alma, como muitos acreditam?) só se multiplicam cada dia mais sem que haja uma cura definitiva para todas elas?

E como (e onde) encontrar a cura se a realidade externa não nos dá uma trégua e ao contrário da salvação, só nos faz mergulhar ainda mais naquele vale escuro que cada um guarda dentro de si e que só nós sabemos o que pode sair de dentro dele?

Aliás, o que é maior; a escuridão externa ou a nossa própria escuridão interna que carregamos conosco aonde quer que estamos? Mas ainda assim, como diz o primeiro verso de What About Us, nós somos holofotes e, portanto, podemos enxergar no escuro. Mesmo que pareça, no momento, que não temos por onde correr, sempre tem uma luz esperando pra ser encontrada por nós.

Pink

Minha terapeuta diz que não existe lugar melhor do que o fundo do poço, porque é o único lugar que a única opção que nos resta é subir. Quando se está no auge tem uma possibilidade enorme de descer e perder tudo que foi conquistado, enquanto se você está no fundo do poço significa que já chegou no seu limite e vai ser obrigado a tomar uma atitude em relação a isso, seja positiva ou negativa.

Só o fundo do poço tem o poder de te tirar da inércia e mesmo na base na porrada, te fazer mudar. Afinal, mesmo que sua escolha seja para o lado negativo da força, ninguém consegue ficar no fundo do poço eternamente sem escolher uma direção.

Eu me considerava uma pessoa de bastante fé, até. Não podia dizer que era uma pessoa religiosa, pois tenho consciência de que isso nunca fui; Nunca fui de seguir dogmas determinados nem tinha uma religião ao certo. Acreditava um pouco em cada uma delas, ou melhor, numa mistura de todas elas e, em algo acima de tudo isso responsável por colocar ordem no caos.

Porém, era aquelas que mesmo nos piores momentos ainda conseguia enxergar os prós de qualquer situação e que nunca — e quando digo nunca, é nunca mesmo — deixava de acreditar que tudo, com certeza, iria melhorar a qualquer momento. Não era nem questão de achismos rasos. Era uma certeza auto convincente mesmo que não me permitia sequer cogitar ter dúvidas. Hoje eu sei que o nome disso era fé. Precisei perdê-la pra perceber o quanto a tive um dia.

Quem desenvolve qualquer transtorno psicológico que seja — principalmente depressão, que te deixa apática em relação a tudo ou quase tudo — perde um pouco de sua fé. Se já não a tinha antes, só intensifica sua falta e, se a tinha, independente da força que esta exercia sobre você, passa a não te-la mais.

A apatia vai corroendo tanto nossos desejos, gostos e crenças, que chega um momento que o que estava fora de discussão pra nós passa a ser algo questionável, duvidoso, com o mínimo de credibilidade possível (se é que ainda sobra algo). E com isso, gera cada vez mais vazio, mais falta de propósito e menos energia vital no dia a dia.

Daí você se pergunta; E agora? E quanto a mim? E quanto a nós? Como seguir se não acreditamos mais em nada? Se o que nos agarrávamos como bote salva vidas em meio às tempestades da vida não faz mais sentido? Creio que seja impossível atravessar qualquer problema emocional/mental/químico — como cada um prefere chamar — sem desconfiar do que um dia ousou acreditar.

Até os supersticiosos como eu não estão imunes a isso. Ainda arrisco dizer que estes são os que mais sofrem com tais doenças.

Em contrapartida, da mesma forma que dizem que só se encontra quem se perde, só fortalece a própria fé quem a teve abalada na marra. Às vezes é preciso passar por determinadas coisas para fortificar nossas crenças e sair das situações com elas restabelecidas de forma mais consistente.

Muitos céticos, ateus, etc, ao enfrentar uma depressão, por exemplo, sentem necessidade de buscar algo no qual acreditar e até se transformam em homens e mulheres espiritualizados depois disso.

Cada um lida com as crises de uma maneira. Mas em geral o processo começa com a indiferença, depois vem a série de questionamentos seguido pela raiva de Deus ou daquilo que vemos como força superior (“E você nos traiu e foi ruim demais”, “Estávamos dispostos, nós viemos quando você chamou.

Mas, cara, você nos enganou, e agora já deu.”), o que é normal porque chega um ponto que a desesperança e apatia são tão grandes que se transformam em ódio. Após tanto tempo enterrado num buraco sem uma brecha de luz de salvação, a revolta é consequência.

E com ela, vem a falta de fé. Pensamos que se não conseguimos abrir as portas do poço que nos metemos, então, não há nada zelando por nós. Nos sentimos abandonados, rejeitados, desprotegidos, com medo do mundo, dos outros e principalmente, de nós mesmos e, com ódio, muito ódio. Sobra ódio pra todos os lados.

Até que viramos ateus e ateias, cansados de tanto descaso divino. Sempre desconfiei que no fundo todo ateu tinha mágoa de Deus. Não tenho certeza, mas o que sei é que passei a entende-los melhor depois que perdi minha fé. Fiquei um pouco ateia também. Ateia não por princípios ou convicções, mas por remorso e rancor a tudo que fosse concebido como Deus.

Contudo, chegamos à última parte do processo, onde estamos tão exaustos de nós mesmos, que decidimos dar mais um voto de confiança à fé a fim de tentarmos fazer as pazes com aquilo que denominamos por Deus.

No momento ainda estou caminhando por esse processo. Sei que no meio disso ainda vou esbarrar com muitas curvas pela frente mas, sinceramente, não importa. Assim como a mensagem final da música, eu estarei pronta. A letra termina com esperança e assim, que também escolho me manter. Uma esperança mais abalada, mais frágil, é claro. Mas ainda assim esperança.

“Pedras e paus podem nos ferir. Mas então vou estar pronta, vocês estão prontos? É o começo de nós, estamos acordando, venha. Vocês estão prontos? Eu estarei pronta. Pois eu não quero controle, quero desapegar. Vocês estão prontos? Eu estarei pronta E agora é hora de informá-los. Vocês estão prontos?”

Estudante de Letras metida a astróloga graças (ou não) ao seu escorpião com ascendente em peixes e lua em aquário. Viciada em séries a ponto de se recusar a aceitar a "morte" de Lost até hoje. Precisa de injeções diárias de realidade pra não ser abduzida pela Terra do Nunca.

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